Uma política cinzenta

Se ao menos houvesse gente ruim por aí, insidiosamente fazendo o mal e fosse necessário apenas separá-las do resto de nós e destruí-las. Mas a linha que divide o bem do mal passa pelo meio do coração de cada ser humano. E quem está disposto a destruir um pedaço de seu próprio coração?

Alexander Solzhenitsyn

Nosso cenário político brasileiro segue polarizado. O frenesi das ruas entre sim e não, entre bandidos e heróis construídos a partir de uma inocente mentalidade que é defendida entre berros, rancores e imensuráveis dissabores; só me faz crer que o homem é um desconhecido de si e que vive projetando na realidade circuncidante seus medos e sombras, bem como seus sonhos e devaneios pueris.

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É sempre mais fácil crer e ver o preto no branco, mas é verdade também que é sempre uma visão mais rasa e apaixonada. Bom seria podermos identificar o joio no mundo para arrancá-lo e tocar fogo. A realidade, porém, é que joio e trigo se misturam e se confundem.

Os revolucionários de plantão quase sempre tem um plano de mundo melhor quando suas vidas afundam em frangalhos e fracassos existenciais. De outro lado, porém, os sentinelas dos velhos e bons costumes, que veem seu mundo idílico ser ameaçado por uma devassa força externa, quase sempre, é um túmulo vazio ou na verdade um túmulo cheio de fetiches e obsessões perversas que ele esconde sob a bandeira do “cidadão de bem” .

Velhas promessas, velhos sonhos com ares de novo, velhos medos e velhas esperanças. Que homem é esse que quer mudar o mundo para não mudar a si? Que quer amordaçar o outro porque imagina que vê a luz? Que ridiculariza o outro com suas concepções porque não consegue, nem por um segundo, duvidar das próprias convicções absolutistas e impermeáveis.

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Nessa história nem fatos, nem evidências, ou provas, gravações, testemunhos, podem flexibilizar a posição irremovível das ideologias. Não se trata do razoável, do intelectível, do dialogal ou da boa vizinhança, mas da cegueira, da inconsciência, do medo e do desespero que nos corta e que nos faz agir com toda força de tudo aquilo que recusamos.

Somos cinzas e nossa politica também é cinzenta.

*Rodrigo Virtuoso F. Leal

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1889

Tenho a crescente convicção de que a república não vingou.

Penso as vezes que se Floriano Peixoto, Ruy Barbosa e outros pais do levante republicano, vissem o atual estado de coisas a que fomos reduzidos, fariam “penitência” pelo ato revolucionário.

Penitência é algo faltoso no vocabulário, no imaginário e na vida das pessoas modernas. Coisa sensata é essa de ver que se errou e tentar reparar o erro cometido.

Quantas são as ilusões inerentes a nossos sonhos mais sublimes? O quanto nos cegamos quando pensamos ser os iluminados e os iluministas? Quanta dor causamos quando pretendemos ter a cura?

Errar faz parte da caminhada! Só acerta quem considera a possibilidade de errar. Triste, porém, são esses dias em que não se pode falar de erros, pecados, crimes… tudo foi reduzido a um discurso sedutor, arguto e intra-perverso que continua nos incitando a sermos como “Deus”.

Rodrigo

O Brasil de agora-ágora

O Brasil está rachando e já o esteve antes e mesmo assim insistiu em ficar unificado em sua vasta extensão territorial. Mas nossas convicções são mesmo faccionais.

Creio que, no cenário atual, ficar agarrado a uma visão partidarista é cegueira voluntariosa que só atenta contra a nação.

As mídias aquecem os debates inflamados, circulam-se notícias de toda ordem e de vários afetos e desafetos. Frente a tantos ânimos incitados quem pode se manter sensato para ver a realidade?

O Brasil nesse momento precisa de quem ame a pátria e não o partido.

O Brasil nesse momento precisa de quem ame as pessoas e não o povo enquanto massa ideológica.

O Brasil nesse momento precisa de quem ame a verdade e não o discurso.

O Brasil nesse momento precisa de quem ame a justiça e não o justiceiro.

O Brasil nesse momento precisa de quem conheça a história e não as propagandas.

O Brasil nesse momento precisa de quem aprecie o bem e não a manobra.

O Brasil nesse momento precisa de quem se sacrifique ao invés de pedir o sacrifício alheio.

O Brasil não é apenas um balcão de trocas, não pode ser reduzido a um laboratório de experimentos descompromissados, não pode perder sua vocação de nação.

O Brasil precisa deixar de ser terra de exploração de riquezas para ser uma unidade bem configurada em sua esplendida diversidade.

Rodrigo

 

Arte Suja: sobre política, religião, morte do pai, metafisíca, ethos, imanência, urubu, feijoada, cu…

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A arte não é um espelho para refletir o mundo, mas um martelo para forjá-lo.” Vladimir Maiakovisk

“Eu acho que o mundo não tem sentido mesmo. O sentido é inventado” Ferreira Gullar

“O homem é seus valores. Porque sem valores eu não sou nada”. Ferreira Gullar

(Sobre Sarte: a vida é um caminho para a morte) “O que tu me dá para viver? Só fica esfregando lama na minha cara” Ferreira Gullar

…”uma traição a integridade intelectual é acreditar em algo por ser útil e não por ser verdade”. Bertrand Russell

Vou me valer de uma pequena crônica (não garanto que ao fim do texto esteja lá uma crônica mesmo: duvido muito!) pra falar de assunto que precisaria de um tratado. O assunto pelo qual padeço e me compadeço não tem nome, ao menos não tem um nome exato. O que aqui pretendo tratar é algo intricado, com imbricações tão vastas que não se pode criar um catálogo sem incorrer em inexatidão.

Pretendo desdobrar esse texto em outros dois ao menos, para ver se ao fim uma silhueta desse “bicho disforme” se apresente.

Tudo começou a fervilhar na minha cabeça com o episódio do Queermuseu promovido pelo Santander com financiamento da lei Rouanet.

Muitos pensadores e gente comum (filósofos, youtubers, políticos, representantes de movimentos etc) deram seus pitacos na internet sobre o assunto. Mas do que se trata esse episódio largamente comentado, despertando paixões e reações tão dispares? É sobre arte? É sobre política? É sobre posições políticas? É sobre arte como meio de estabelecer posições políticas? É sobre esquerda ou direita? É sobre minorias e opressão? É sobre fé e profanação? É sobre moral e imoralidade? É sobre o convencional e o bizarro? É sobre impostos e governo? É sobre o movimento LGBT e fanáticos? É sobre censura e liberdade? É sobre… esse texto será confuso – mais do que costuma ser – porque seu conteúdo é tão complexo quanto sua problematização. A indefinição do objeto de especulação é tal que me arrisco a dizer apenas que vejo, pretensamente, que o núcleo de um pandemônio como esse se desdobra e se revira sobre a ideia do “ethos” do homem ocidental.

Representações de Hóstias com palavras chulas escritas nelas, um Jesus crucificado a moda de Shiva de Fernando Baril são uma parte da mostra que reunia mais de duas centenas de obras de oitenta e cinco artistas. Mas as que repercutiram com acusações de vilipendio a fé e apologia à pedofilia e zoofilia, creio, não passam de duas dúzias (o que não é pouco).

Não podemos relegar essa discussão a uma questão de carolice religiosa, de gente cheia de pudor que não suporta o choque da realidade. De gente pequena incapaz de assimilar as grandes questões e as atitudes arrojadas de um outro tipo de gente mais moderna e, portanto, mais inteligente (o silogismo aqui é irônico).

O que me parece muito claro e óbvio em toda essa querela e que quase nunca é assumido ou debatido a céu aberto é que “o ethos cristão que foi forjado nos últimos dois milênios vem sendo confrontado e recusado (ás vezes com grande truculência e desafeto) mais intensamente,pelo menos, nos últimos três séculos”. O mundo ocidental se cansou de ser cristão, está desgostoso disso. Ele primeiro se cansou de ser cristão à moda antiga e invencionou maneiras mirabolantes de ser cristão com roupagens novas, desconstruiu muita coisa, colocou novos ingredientes, fez novos anelos com os costumes pagãos, flertou com a maneira de ser do mundo, mas ao fim, ainda assim, sentiu asco de tudo isso e está recusando o que herdou.

Há um movimento paralelo e imbricado nesse: a recusa da autoridade! A indisposição com o signo do pai. O pai se tornou a figura da tirania, daquele que oprime, que tem todos os direitos e dita todas as regras à revelia de todo sentimento e desejo filial. Um “complexo de édipo” em níveis sociais para além da infraestrutura familiar, chegando ao trono do poder político. Essa derrubada do pai ou esse parricídio à moda dostoieviskiana (Irmãos Karamazov) e freudiana (Totem e Tabu) está descaradamente manifestado em tudo isso.

Historicamente, porém, não podemos esquecer que a derrubada do poder de um monarca ou presidente, quase sempre, é procedido de algum tipo de fratricídio, de derramamento de sangue em guerras civis e em tiranias que se erguem na vacância do poder, do norte, da ideia de verdade, bondade e beleza.

Se o personalismo do pai pode, em sua corrupção, se degenerar em algum tipo de absolutismo e opressão, existe sempre uma ameaça, um espectro que assombra o nivelamento fraterno e deságue em disputas sangrentas entre irmãos. A harmonia social não é obra de um esforço por igualar as coisas guiados pelo ingênuo instinto de desconstruir tudo. Depois do fim, quando só restar ruínas e um vazio, teremos que construir um novo ethos, mas esse também – ainda que perpassado pelo culto da subjetividade – será, em alguma medida, arbitrário.  A provocação de Vattimo ao dizer que somente um deus relativista pode nos salvar, faz algum sentido frente às escolhas drásticas do homem contemporâneo.

A arte conceitual não quer se haver mais com objetividade, com a ordem das coisas e muito menos com qualquer busca de sublimidade e transcendência. A imanência é a regra de vida contemporânea: sintomaticamente cresce a sede pelo transcendente frente a seca de tais paragens espirituais.

O homem matou “Deus” porque pretende ser deus de si. E tudo o que represente ordem, moral, convicção, certeza, absoluto etc., lhe parecerá ofensivo quando não obsoleto. Num panteão de deuses tiranos, Prometheus (antevisão) parece ser herói, mas é preciso estar pronto para confessar que num céu onde Deus é amor e vida, Prometheus é um transgressor que padece de sua própria ousadia emancipatória (como se livrar do amor?).

A arte, portanto, nesse fim de tantas desconstruções é algo grosseiramente subjetivo, não causa espanto e não pode representar algo de mais elevado. De outro modo é, desgraçadamente, uma miragem de si. Sua pretensão de ser dialógica, na ausência de aquiescência popular se revela imponderada, histérica, colocada goela abaixo, gritante, impositiva, escolar, pedagógica, normativa e politizada.

Tolstoi malogrado em seu conceito de arte (“arte é um dos meios que une os homens”) se esqueceu de mencionar que arte é, também, um dos meios que separa os homens. Na verdade a arte, como tantas outras formas de linguagens, de construções, de percepções e ideais é uma maneira de escoar e comunicar nossas convicções e escolhas mais profundas: aquelas que confessamos e aquelas que jamais confessaremos.

Findo esse texto com a confissão de um dos artistas que teve sua obra exposta no Queermuseu. Isso importa muito! Pensar a obra sem pensar o autor e suas intenções mais secretas e propulsoras é uma admiração esquizofrênica. Esse sucinto relato poupa o curador dessa exposição de tentar explicar o inexplicável ou de confessar o inconfessável.

Fernando Baril ao Jornal Zero Hora: “”Era uma semana santa, e eu estava lendo sobre as santas indianas, então resolvi fazer uma cruza entre Jesus Cristo e a deusa Shiva. Deu aquele montaréu de braços carregando só as porcarias que o Ocidente e a Igreja nos oferecem. Certa vez, Matisse fez uma exposição em Paris e, na mostra, tinha uma pintura de uma mulher completamente verde. Uma dama da sociedade parisiense disse ‘desculpe, senhor Matisse, mas nunca vi uma mulher verde’, ao que Matisse respondeu que aquilo não era uma mulher verde, mas uma pintura. Aquilo não é Jesus, é uma pintura. É a minha cabeça, ponto. Me sinto bem à vontade para pintar o que quiser.”

Todas aquelas representações estão conectadas com formas, com vivências, reminiscências, traumas, convicções e revoltas que seus idealizadores trazem dentro de si enquanto estão desenvolvendo sua criação. E tais eventos interiores são comunicados de alguma forma na materialidade de suas obras. O ajuntamento dessas obras de “arte” num espaço não foi obra do acaso, do caos ou da coincidência, mas de uma intenção, de um discurso arquitetado que carrega sim uma mensagem e uma apologia. Aqui se trata de posições de vida, de escolhas e mesmo de condicionamentos e muitas inconsciências.

Como dizermos daquilo que pensamos, como nos posicionar no debate público sem com isso conquistarmos de imediato o ódio alheio? Me parece que o discurso sobre inclusão e diversidade não surtirá efeito algum enquanto no fundo e de fato formos internamente intolerantes e segregadores.

Com a queda do governo em nosso país estamos digladiando para ver quem prevalece. Tudo é um ato político, sempre foi, mas só agora se torna tão evidente. Estamos aqui querendo ocupar cada espaço de opinião pública. Queremos arrastar os outros aos nossos padrões. Queria acreditar que os irmãos de pai morto podem chegar à serenidade sozinhos, queria acreditar que seremos maduros o suficiente para vivermos todos felizes na diversidade e na pluralidade, mas isso seria mentir mais uma vez. Não podemos e não iremos. Há muito em jogo em tudo isso. A arte não é somente arte. E a exposição, portanto, pende sobre si todo um universo de coisas que por ora se encontram acaloradas e desequilibradas.

A moda messiânica (me fingindo de profeta para não confessar que sou louco) encerro dizendo que com esse texto não vim trazer respostas e clareza, mas confusão e rupturas.

“A arte é o espelho e a crônica da sua época.” William Shakespeare

“A arte é a mentira que nos permite conhecer a verdade. ”Pablo Picasso

“Arte pra mim não é produto de mercado. Podem me chamar de romântico. Arte pra mim é missão, vocação e festa”. Ariano Suassuna

 

Rodrigo V. F. Leal

Berdiaev e a Servidão

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O homem procura a liberdade. Dentro dele existe uma poderosa força que o empurra em direção à liberdade mas, no entanto, o ser humano facilmente despenca na escravidão.

Existem três condições humanas, três diferentes estruturas de consciência, distinguidas sob os nomes de “senhor”, “escravo” e “homem livre”. Senhores e escravos são correlativos. Não podem existir independentemente. O homem livre, porém, pode existir individualmente -possui suas próprias qualidades, sem estar preso a correlações de oposição.

O mundo da escravidão é o mundo do espírito que se aliena de si mesmo. A exteriorização é a fonte da escravidão, enquanto que liberdade é conseqüência da interiorização. No mundo objetivado em que vivemos, o homem só consegue ser relativamente livre e, não, absolutamente livre. Esta semi-liberdade resulta de conflitos e resistências às necessidades colocadas diante dele. A liberdade resultante da necessidade não é liberdade real, é apenas um elemento na dialética da necessidade.

O homem não deve almejar ser amo e senhor mas aspirar em converter-se em homem livre. A submissão de outros homens traz sempre a própria submissão. Quem escraviza é escravo. O amo é a figura do escravo ao contrário. Prometeu era um homem livre e um libertador, enquanto que o ditador é um escravo escravizador. A aspiração de poder é um desejo vil. Cristo é o protótipo do homem livre, César é o exemplo do escravo do mundo, submetido ao desejo de poder, percebendo apenas a vocação das massas para torná-lo senhor. Mas os servos também derrubam os amos e os césares. Liberdade é libertação não apenas dos opressores mas dos outros escravos igualmente. A condição de senhor é determinada por necessidades externas, não é uma imposição de personalidade, é uma injunção. Somente o homem livre é uma personalidade. Os demais são arranjos.

A queda do homem se expressa na sua inclinação para tiranizar. O homem tende à tirania, seja em grande ou pequena escala, se não como governante, como marido, pai. O homem tiraniza com ódio e com amor. Sobretudo, tiraniza-se a si próprio. Esta autotirania se manifesta através de uma falsa consciência de culpa. Uma consciência de culpa verdadeira tornaria o homem livre. Mas, atormentado por falsas culpas, produz insalubre auto-estima que o tiraniza nos projetos e visões. A exploração do homem pelo homem, que Marx considera o demônio fundamental da sociedade humana, é um derivativo, só ocorre quando se encontram homens dispostos intimamente a exercer este poder. Um homem verdadeiramente livre não deseja comandar os demais, mesmo que as condições o favoreçam. O líder das massas está no mesmo estado de servidão da massa – ele não tem existência autônoma alguma fora da massa. Sem os escravos, não se pode desempenhar o papel de senhor. Sem senhores, não há escravos. Este é um jogo duplo.

César – ditador, herói do desejo imperialista, não pode limitar-se nem interromper. Prossegue insaciavelmente sempre em direção à perdição, é um escravo do seu destino glorioso. Mas o homem pode ser escravizado também através de violências que não são físicas.

Sugestões e condicionamentos a que são submetidos homens desde sua infância fazem deles escravos. Um sistema educacional errôneo pode extrair totalmente de um homem sua capacidade de ser livre nos seus julgamentos e apreciações.

Violações, torturas e assassinatos são fraquezas. Não são poder. Os grandes valores da humanidade são sempre menosprezados. O policial e o sargento são sempre mais fortes do que poetas e filósofos. Escravos e senhores triunfam sempre sobre os homens livres, pois no mundo objetivado e exteriorizado ama-se o finito, ninguém agüenta o infinito.

A verdade está sempre ligada à liberdade. Escravidão está subordinada à negação da verdade. O amor à verdade é o triunfo sobre o medo escravizador. O homem primitivo pulsando dentro do homem moderno é dominado pelo medo. Medo e escravidão são passivos. A vitória sobre a escravidão é obtida com atividade criativa. O homem não vive apenas no tempo cósmico e histórico, mas também no tempo existencial. Vive igualmente fora da objetividade que construiu em torno de si, para aprisionar-se.

Homens livres têm uma responsabilidade: escravos não podem preparar um novo reinado, pois a revolta de escravos estabelece sempre novas formas de escravidão.

Publicado na Folha de S. Paulo,
sexta-feira, 09 de dezembro de 1977

Nicolai Berdiaev, pensador russo, nasceu em 1874 e morreu em 1948.

Verdade

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Estas verdades não são perfeitas porque são ditas, e antes de ditas, pensadas

No dia brancamente nublado entristeço quase a medo

E ponho-me a meditar nos problemas que finjo…

Se o homem fosse, como deveria ser,

Não um animal doente, mas o mais perfeito dos animais,

Animal directo e não indirecto,

Devia ser outra a sua forma de encontrar um sentido às coisas,

Outra e verdadeira.

Devia haver adquirido um sentido do «conjunto»;

Um sentido, como ver e ouvir, do «total» das coisas

E não, como temos, um pensamento do «conjunto»;

E não, como temos, uma ideia do «total» das coisas.

E assim — veríamos — não teríamos noção de conjunto ou de total,

Porque o sentido de «total» ou de «conjunto» não seria de um «total» ou de um «conjunto»

Mas da verdadeira Natureza talvez nem todo nem partes.

O único mistério do Universo é o mais e não o menos.

Percebemos demais as coisas — eis o erro e a dúvida.

O que existe transcende para baixo o que julgamos que existe.

A Realidade é apenas real e não pensada.

O Universo não é uma ideia minha.

A minha ideia do Universo é que é uma ideia minha.

A noite não anoitece pelos meus olhos.

A minha ideia da noite é que anoitece por meus olhos.

Fora de eu pensar e de haver quaisquer pensamentos

A noite anoitece concretamente

E o fulgor das estrelas existe como se tivesse peso.

Assim como falham as palavras quando queremos exprimir qualquer pensamento,

Assim falham os pensamentos quando queremos pensar qualquer realidade.

Mas, como a essência do pensamento não é ser dita, mas ser pensada,

Assim é a essência da realidade o existir, não o ser pensada.

Assim tudo o que existe, simplesmente existe.

O resto é uma espécie de sono que temos,

Uma velhice que nos acompanha desde a infância da doença.

O espelho reflecte certo; não erra porque não pensa.

Pensar é essencialmente errar.

Errar é essencialmente estar cego e surdo.

Estas verdades não são perfeitas porque são ditas,

E antes de ditas, pensadas:

Mas no fundo o que está certo é elas negarem-se a si próprias

Na negação oposta de afirmarem qualquer coisa.

A única afirmação é ser.

E ser o oposto é o que não queria de mim…

ALBERTO CAEIRO

Ponto cego

Pior do que sermos pecadores é sermos impenitentes.

Pior do que sermos tão mediocres é sermos ignorantes quanto a esse estado próprio.

Passamos a maior parte do tempo fazendo acusações alheias e nos esquecemos de nossa própria reforma.

A maior parte de nós é um fracasso do ponto de vista de nossas próprias projeções.

A maior parte de nós amarga o fazer o que não quer e não fazer o que quer.

Mas perdemos tanto tempo acusando, apontando o tropeço do outro e vociferando quanto as mazelas do mundo, enquanto nosso mundo pessoal esta em ruina.

Somos um oceano de contradições enquanto queremos coerencia de tudo e de todos.

Acho até que fazemos isso para nos reconfortarmos com a sensação de que não somos os unicos ruins.

Pior do que comermos o fruto proibido é termos a ousadia de dizer que a culpa foi do outro!

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Dos botecos e das igrejas: das carências humanas e dos artifícios do consolo

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Na semana passada passei em frente a um boteco que, não faz muito tempo, era “igreja do fogo”. A igreja faliu e o boteco agora tenta a sorte no ponto para atender a demanda dos desamparados locais.

A palavra “igreja” vem do grego “ekklesia” que muitos traduzem como reunião-assembléia e “boteco” por mais irônico que isso pareça, também tem etimologia grega “apothéke”, cujo sentido funcional é lugar de mercado onde as pessoas se reúnem. Os dois são lugares de reunião de pessoas. E, por mais opostos que sejam esses dois lugares, eles carregam coisas muito próximas como lugar de alento, de partilha, de satisfação, de suporte contra os problemas (seja para vencê-los ou fugir deles). Os problemas emocionais nos botecos são afogados com doses e conversa fiada e em muitas igrejas eles também são afogados, porém com choros e preces.

Muitos homens, sobretudo de classes mais pobres, intercalam seus altos e baixos entre igrejas e botecos, entre cultos de apelo emocional e noitadas de embriaguez. Muitos bêbados choram e muitos fiéis também choram: choram de angústia e de alegria, choram seja sob efeito do espírito ou do álcool e assim destravam suas emoções mal resolvidas. Não é a toa que na narrativa dos Atos dos apóstolos confundiram os apóstolos cheios do Espírito com homens embriagados.

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As Igrejas se avolumam e os botecos também. Os bairros mais populares são repletos de igrejas e botecos agindo como válvula de escape para seus habitantes em meio a tantas dificuldades que a vida impõe. Nos lugares mais ricos as pessoas parecem ser mais céticas com a religião e menos dadas às baixezas dos botecos (que sempre carregaram má fama como lugar indigno). Então esses nobres angustiados procuram um novo guru “o analista”. Ao invés de frequentarem cultos de autoajuda (cada vez mais comuns nas igrejas neopentecostais) e de mergulharem na inconsciência da vida boêmia, fazem o “mea culpa” indo ao psicólogo.

Fora a gente chique, as duas maiores terapias para os pobres mortais ainda são: essas igrejas com um orador de microfone empunhado, em cima de um palco usando frases de efeito, misturadas com versículos bíblicos e muita guitarra acompanhada de gritos e dança gospel (com uma palma dessincronizada da plateia de fieis); e os botecos cujo dono é conhecido por todos os frequentadores e que faz seu pastoreio servindo geladinhas e destilados (para os mais quebrados ou que tem problemas emocionais mais crônicos) aos copos cheios dos bebedores de almas vazias, que ali buscam algum consolo ao som de um arrocha ou de um sertanejo “xonado”.

Quereríamos nós termos boa vida, equilibrada e serena para não precisarmos nem de religiões, nem de botecos e nem de analistas, mas não é tão fácil assim. Quem escapa dos três geralmente se envereda por outros caminhos como trabalhar até não ter tempo para se haver consigo mesmo e muito menos com família, frequentar academias, lojas, clubes, grupos de forró, jantares chiques, viagens, spas…. e coisas mais que o dinheiro compra!

*Rodrigo Virtuoso F. Leal

 

(O)(A) Cura

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 Escutar a dor humana nos faz mais humanos. Por escuta não falo do simples ato curioso de querer saber a tragédia da vida alheia, mas a sincera abertura para sofrer o drama que bate a porta do outro.

Julguei, me indispus e tive má impressão de muitos, mas sempre que ouvi a história mais profunda das pessoas, não aquela contata nas rodas de festejo, acabei por ter compaixão. Quando se ouve a tragédia silenciosa de cada pessoa se entende seus descontroles cotidianos, seus exageros, sua arrogância, sua agressividade, sua tristeza crônica etc.

Cada vez mais que escuto, menos jugo, menos me indisponho. Confesso que existe, sempre, uma pitada de ressentimento com as falhas alheias (como pode?)… o ser humano é capaz de muita coisa quando se vê coagido, inseguro e desejando felicidade.

Ouvindo os erros, as insuficiências e as divisões internas de tantas pessoas, vou pouco a pouco reconciliando com as minhas próprias. Como um óleo refrescante caindo sobre a ferida, vou aceitando minha própria humanidade e vou desejando ser melhor, mas não do que os outros e sim do que a mim mesmo.

Os erros não cessam. É preciso mudar com os erros ao invés de se acabar esperando que os erros acabem.

Queira conhecer o humano e terá muitas surpresas (boas e más). O homem é um objeto indecifrável em seu todo. Depois de conhecer um pouco desejará ser ignorante de coisa tão assombrosa, mas  seguindo em frente perceberá que existe coisas belas por debaixo de tantos escombros.

É fácil visitar os salões dos outros, entrar naqueles lugares bem organizados e decorados da superficialidade humana, difícil é descer até os porões e ver de frente os rejeitos, o caos, os esquecimentos e os monstros que ali habitam.

Aqui escrevo nessa intuição: dizer que sou grato por fazer parte daquelas pessoas que operam na intimidade humana e ali perceber que as feiuras desse mundo nascem dessas vozes sufocas e tão veemente recusadas, por um mundo que apenas se importa com grandezas artificiais.

As pessoas não são o que tentam fazer parecer ser, elas são o que são. Mas desde muito cedo aprendemos a criar um personagem que se mata para satisfazer a dura exigência alheia. Ser amado, pra muitos, é ter sucesso, dinheiro e poder (quem de nós não sofre dessa ilusão em algum momento e em alguma medida?). Descubro tão logo que é muito pobre quem cultivou apenas isso: empregabilidade, carreira, status, bens de consumo, relações de consumo.

Olho o cenário atual de nosso pais e o que se passou nos porões do poder e vejo isso: um mundo de areia que se desmorona.  O que daquilo tudo realmente vale a pena? A vida e sua fugacidade não é tão levada a sério.

Escutar pode curar. Escutar a dor real que assola as pessoas nos humaniza. Faz cair à máscara de sermos heróis que jamais fomos ou que jamais seremos.

Depois de tanto escutar a dor real perdi muitas vaidades. Sou “good”! Sou “good”? Eu diria não. Não faz sentido. Sou apenas um homem!

*O homem tão somente