O circo político: populismo nas campanhas musicais

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Enersto Laclau chegou a escrever uma apologia ao populismo, a razão populista, como ele postula, é uma forma de participação do povo, de ampliar as bases democráticas. O populismo na América latina é um fenômeno abrangente. Todos os seguimentos, além da política, são atravessados por ele: educação, Igreja-religiosidade, imprensa e etc.  Cair na graça do povo, obtendo sua simpatia (a moda romana) a custo de fazer de todo ato um circo (ora da fantasia, ora de mal gosto e ora do horror mesmo).

Laclau postula a ideia de populismo que passa a ser uma forma de construção da política, sem um conteúdo ideológico específico. Mas me parece que isso tem como consequência – prática – um esvaziamento; um discurso inócuo cujo fim é apenas fazer volume, sem substancia algum, apenas para entreter plateia. Penso que seja pertinente a conclusão de Getúlio de que o ideal é ainda a alma de todas as realizações.

Não consigo me render ao culto populista, não consigo crer que ele fomente qualquer coisa de valor durável. O populismo com toda sua euforia carnavalesca me parece findar-se num tipo de letargia e não numa ação consciente como é postulado.

Hoje, sábado (péssimo dia aos meus ouvidos: pois os carros de campanha se intensificam), acordo ao som de todo tipo de funk e batidão parodiado com uma musica de campanha. É impressionante como essas musicas agarram em nossa cabeça e nos perturbam por dias a fio. E para minha lastima, me pego cantarolando aquilo que tanto nego racionalmente. Mas esse é o objetivo de tal propaganda miserável: grudar no cérebro dos seus ouvintes “passivos”. No populismo o que importa é impactar e se presentificar nas massas mesmo sem dizer nada a elas que realmente importe.

Então ao som de batidas frenéticas e de rimas pobres, o político diz sua mensagem, qual seja, nada de importante, mas tão somente seu número (que geralmente está no refrão) que se repete como marteladas insistentes para fixar. Isso é o que compõe a engrenagem política em grande medida: ser lembrado nas urnas e esquecido durante todo exercício de mandato.

Estou convicto que se iludem os que deduzem que o populismo dá voz ao povo, senão que o emudece quando o inunda de uma verborragia estéril. O populismo serve como uma engenhosa ferramenta de domínio das massas quando, a custo de pão e circo, distrai o miserável de sua real condição. O desejo prescindiu a virtude e fez do homem não apenas um sujeito histórico consciente de seus direitos, mas um tipo de animal esquecido de seu glorioso destino.

“Política e politicalha não se confundem, não se parecem, se relacionam com a outra.antes se negam, se repulsam mutuamente. a política é a higiene dos países moralmente sadios. A politicalha, a malária dos povos de moralidade estragada.” Rui Barbosa

*Rodrigo Virtuoso

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CID-10: meu mal tem nome!

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Descobri hoje, o doutor me disse, o nome do meu mal.

Foi terrível, foi avassalador sentir tudo aquilo.

De que ordem era?

Uma mistura de corpo, mente, sentimentos e sensações saindo por todos os lados.

Parecia que morreria

O mundo estava acabando

Coisa estranha! Coisa inominável…

Mas hoje descobri, tem nome

Não sei o que fazer com esse nome

É um registro?

Ou é um método como do exorcista que precisa nomear os demônios para expulsá-los?

Doutor o senhor deu um nome para o meu mal, agora pode saná-lo?

 

 

Só se morre uma vez: relatos de uma missa de sétimo dia

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Mais um homem partiu, morreu, como milhares o fazem todos os dias sem que nos demos conta. Era um cidadão comum e insignificante como tantos outros se não levarmos em conta que sua perda foi, terrivelmente, sentida pela família que ali fazia seu canto fúnebre frente a um vazio que não podia ser preenchido.

Lá se foi um bom homem, confidenciou-me meu amigo: filho daquele que atravessou ao outro lado da margem. Só se morre uma vez, assim como só se perde um pai por uma vez.

Depois da marcha desgastante entre perda repentina, tramites legais e enterro, só restava um alento, um ato de misericórdia: a missa de sétimo dia! Para pessoas criadas numa sensibilidade religiosa e de certa piedade, o consolo da Igreja é o ultimo que resta em tais momentos.

Numa segunda-feira lá estava a família junto a comunidade local a espera do padre para o ofício litúrgico, um rito que segundo se crê, pretende unir a morte de Cristo a morte do homem, para que assim também o homem se configure ao Cristo vencedor da morte; ressuscitado! O mistério do homem que padece deságua, ali, no mistério do Cristo padecente, para depois se erguer do túmulo.

Perpassados de angustia e dor, de tristeza profunda e vazio, ansiosos aguardam o “pastor” que só chegou em cima da hora. Num clima  de normalidade e numa atenção automática como de um funcionário administrativo-burocrático em fim de carreira. Deu-se o início, na mesma marcha,  da tão aguardada missa.

Tudo corria como sempre sem que o padre se desse conta da perda tão lacônica que assolava aquela pobre família, que espera ao menos as migalhas de alento de uma voz transcendente. Justo nesse momento onde céu e terra se fazem tão próximo, onde a tênue linha que separa corpo e espírito parece ter sido rompida, nada se sentia de tais realidades supra terrenas.

Na homilia, momento propício para se refletir sobre a brevidade dos viventes, bem como a vaidade de nossa miserável vida e de anunciar a boa nova da ressurreição, deu-se apenas uma homilia dialogal com uma ávida “platéia” que não queria interagir dando respostas banais, mas tão somente escutar a palavra de seu pastor em um momento desses.

E ao fim, assim como no começo e no meio, seguiu-se a indiferença, a quase frieza com o que ali se celebrava. Para não passar em branco o padre malogrado resolveu perguntar “quem é a pessoa que morreu?”: sem tomar nota prévia o padre apenas como quem cumpre uma obrigação e para completar  a tragédia de seu pastoreio fez uma piada de mal gosto sem se aperceber da sacralidade do defunto bem como do ato de morrer.

Desamparada, mesmo nesse derradeiro momento, a família só fez permanecer em seu silêncio sepulcral. Falar o que frente a tal cenário? O morto estava morto, mas sua morte ainda estava viva na memória e na lembrança tão recente daqueles que sofriam sua partida. Mesmo a morte é burocratizada. Mesmo a morte se torna trivial e comum para uma sensibilidade tão embotada devido a grossas camadas de mesmices.

Aquele padre “coitado” fez o desserviço da fé, deixou de ser pastor para ser um operador da religião, que nada transmitiu de vivo, senão uma velharia que as pessoas sentem desejo de abandonar.

Então, depois de ouvir o lamento de meu amigo, sufocado pelas reflexões de tão grande decepção, pensei em seu pai falecido: um anônimo, morto como tantos outros, de forma tão vulgar até o ultimo momento.

Diante desse tétrico cenário ofereço-lhe um alento meu amigo: Teu pai se configurou a Cristo! O próprio filho de Deus foi tratado assim: morto como qualquer outro homem, insignificante, não mereceu nem uma nota dos antigos historiadores, esquecido e desprezado mesmo pelos sacerdotes que nada viam de especial nele. Enquanto o filho de Deus morria o mundo seguia, como sempre, na sua gigantesca engrenagem de coisificação de tudo (até da morte).

As lágrimas da mãe de Jesus pareciam tão solitárias, seu amigo João que o seguiu  até a cruz parecia não encontrar nenhuma outra alma que o ajudasse a velar. E assim o Cristo findou sua vida tão comum, bem como quando nasceu. Menino pobre na manjedoura, homem pobre na cruz. Sua sorte não estava nessa terra… não estava. Só as bem aventuranças podem acenar para um outro fim.

 

 

Conhecimento?!…

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Não há quem saiba de tudo

Não há quem nada saiba

Conhecimento é poder

Conhecimento é impotência

O conhecimento pode trazer grande alívio a nossos sofrimentos

O conhecimento pode aumentar o flagelo de nossas agonias

Conhecimento dá prazer

Conhecimento dá angústia

Um mundo surge quando ampliamos nosso conhecimento

Um mundo morre quando nos atrevemos a conhecer mais

Quanto mais se sabe, mais se tem por saber

Quanto menos se sabe, menos se sabe

Conhecimento e conhecimento

Vaidade das vaidades teria suspirado o mais sábio dos homens.

Conhecimento?!…

Entre dois mundos

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Na década de 80 um filme fez história “De volta para o futuro” de Robert Zemeckis. Nesse longa o protagonista oscila entre passado e futuro. A gama de filmes que retrata a viajem no tempo é imensa. Mas há também viagens a mundos diferentes (um real e outro fantástico, um temporal e outro atemporal) como “Harry Potter”, “Nárnia” ou “O labirinto do fauno” são mostras dessa típica filmografia. Há viagens e alternâncias também em mundos induzidos ou virtuais como “Matrix” ou “Avatar”. Seja por mágica, por projeção mental ou por tecnologia, o que me ocorre é denotar as marcas que essas viagens causam nos que nelas se aventuram ou delas padecem como que por um inexplicável fatalismo.

É muito comum dizermos que esquizofrênicos vivem na fronteira e na alternância de dois mundos. Ekizo do grego “dividir em dois” “cisão”, cuja ruptura – no caso da mente ou psique – gera grandes sofrimentos aquele que é acometido de tal “enfermidade”. Seria oportuno, porém, lembrarmos a gama de ambiguidades que vivemos e de como a vida esta repleta delas.

Se é verdade que o sujeito psicótico está embalado numa alucinante – e por vezes mortal –  alternância entre fantasia e realidade, ou entre mundo interno e externo, sendo entrincheirado pela “certeza” que lhe trazem as alucinações e os delírios; de igual forma o neurótico também padece sob as imposições de um eu dividido entre gozo e lei, entre dever e desejo. O que, não raras vezes, o leva, também, a um escape da crueza dos fatos e o faz procurar por  outro fantástico mundo (mas que quase sempre é uma mera projeção de um ego que quer evitar todo sofrimento e perda).

Se o louco tem dois mundos e crê nos dois, o neurótico sofre de uma louca lucidez e, mesmo estando ciente de que um dos mundos é irreal, ele não consegue se recusar a viver nele. O louco está certo da existência de dois mundos, enquanto que o neurótico padece – justamente – por duvidar ou, talvez, por saber que esta acreditando e apostando numa doce impossibilidade.

Mesmo Jesus esteve entre dois mundos: um terreno e um celeste. Viveu nesse, mas se projetava constantemente num outro. Cravado na cruz, parece erguer bem alto um paradoxo inconcebível, onde Deus e homem se entrelaçam, onde Deus morre e onde o homem mortal vive para sempre. A cruz (com o crucificado) é signo máximo desse entrelaçamento entre o divino e o humano, entre espiritual e terreno, entre sofrimento e amor.

Em poucas pessoas – sobretudo as cristãs – ocorre o pensamento de que Moisés ficou frente a dois mundos (o hebreu e o egípcio), alias, disso se dão conta a partir do relato, mas quase não se atem ao fato de que Moisés precisou amar e lutar pelo que não conhecia e precisou destruir aquilo que ele mais conhecia e amava. Destruiu suas certezas em detrimento de um desconhecido. Sua terra e sua gente com a qual ele cresceu e se afeiçoou eram os egípcios e não os hebreus. Se ele carregava o sangue dos escravos hebreus de um lado, de outro em suas memórias mais afetivas o que ele carregava era o império e os cuidados maternais desse lugar chamado Egito. Herança se opunha a experiência, destino cruzou o caminho da vivência cotidiana.

Quase como que na tragédia edipiana, Moisés fugindo de seu destino acaba indo de encontro a ele. Para os cristãos e mesmo judeus existe um regozijo com a libertação mosaica, mas, talvez, não se dão conta de que para libertar o povo de Deus esse mesmo Moisés precisou destruir seu próprio mundo, seu próprio povo (a qual ele aprendeu a amar e se afeiçoar: que lhe cuidou – alimentou, educou e protegeu – para o ver depois se levantando como um destruidor). Quando Jesus reclama por um amor de seus seguidores que seja capaz de renegar até mesmo o amor da parentela Ele o faz na esteira da angustia desse mesmo Moisés.

Em filmes como Nárnia, Harry Potter ou mesmo Labirinto do fauno, os protagonistas possuem uma vida real muito sofrida (orfandade, crueldade dos cuidadores adotivos, ou um entorno em guerra e carestia) em contraste com o outro mundo que, apesar de bélico, eles possuem notoriedade (são reis, rainhas e bruxos magníficos), são admirados e queridos. No outro mundo “metafísico” eles podem mais do que no mundo imanente. Esses personagens nos fazem lembrar as projeções comuns que pessoas em sofrimentos reais podem criar como chave de escape. Mesmo o céu (seja dos cristãos, judeus, mulçumanos etc) pode ser visto como um grande delírio ou como uma engenhosa ferramenta de alento e esperança para os sofredores desse mundo. Pessoas que se não padecem com terríveis sofrimentos ao menos sofrem a dura realidade da insignificância de serem o que são (gente comum e anônima: pouco interessante para um mundo dado ao espetáculo).

Mas, como no desfecho de Del Toro (em Labirinto do Fauno) ficamos a nos perguntar se a menina realmente é apenas uma pobre coitada esmagada pela tirania alheia de um mundo cruel ou é, de fato, uma princesa que foi duramente provada. Essa resposta segue suspensa… façam suas apostas (é o máximo que se pode ir)!

Mas há mundos que mesmo que sejam irreconciliáveis e que jamais possam coexistir sem se arruinarem, ou arruinar o sujeito híbrido, são igualmente amáveis e sedutores. Na série “OutLander” vemos a enfermeira viajante no tempo se debater entre dois mundos. Seu caso é a típica fatalidade. Não foi guiada pela consciência, mas por algo que incidiu sobre ela, algo que a transpassou sem lhe perguntar nada. Embora, tão só toque o outro mundo hostil que ela não escolheu, ela precisará – irrenunciavelmente – fazer uso de sua consciência, terá que escolher a partir de uma reviravolta que ela não escolheu.  Ao chegar no novo mundo que lhe é amedrontador o que lhe ocorre é apenas retornar ao seu ethos anterior, mas a medida que se seguem as coisas ela alterna entre repugnância e desejo, entre medo e amor e como resultado dessa dupla experiência se dará o nascimento da poderosa dúvida (ela não esta mais certa do que quer).

Quando o sujeito se prende assim entre dois mundos (contingências), dois amores (permanência), duas histórias (passado) e dois destinos (futuro), quase sempre, senão sempre, oscilara entre autonomia e espera impotente, entre protagonismo e passividade, entre certeza e angustia. Tal sujeito já não mais pode se prender nos planejamentos e simples devaneios da autorrealização, mas terá que se abrir muito mais a um instinto de sobrevivência (mas não em detrimento do outro, mas apesar dele). Uma sobrevivência que implica em quebrar a casca de uma complexa fonte de desejos para ir em direção a uma vida simples que aprendeu a renunciar a muitos gostos. Nessa bifurcação existencial está a punição da soberba: ai ou se aprende a ser humilde (húmus, pó) ou se é tragado belo torvelinho que o envolve.

O poder da escolha jamais será tirado, como também a punição da escolha jamais será suspendida, o sujeito se debaterá entre (não enquanto exclusão de um ao outro, mas enquanto síntese) dom e missão, entre revelação e trivialidades, entre paz e guerra.

A libertação conduzida por meio de Moisés lhe custou ver toda sua antiga gente ser afogada num poderoso mar, como a libertação cumprida por Jesus lhe custou à vida (e a sua mãe custou ver Aquele que mais amava ser flagelado e morto por amor e obediência Aquele que ela não via).

Entre dois mundos não pode haver paz até que haja uma síntese. O sistema binário da existência tende a ser metamorfoseado em unidade perfeita, comunhão amorosa. Até lá o que resta é a espada que divide…

 

*Rodrigo Virtuoso F Leal

 

 

 

 

Walden

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Uma inspiração thoreauniana que vez e outra me retorna a mente e coração “Fui para a mata porque queria viver deliberadamente, enfrentar apenas os fatos essenciais da vida e ver se não poderia aprender o que ela tinha a ensinar, em vez de, vindo a morrer, descobrir que não tinha vivido. (…) Queria viver profundamente e sugar a vida até a medula, viver com tanto vigor e de forma tão espartana que eliminasse tudo o que não fosse vida (…)”

A perversão de Michel Foucault (parte III)

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A grande coisa que se pode dizer a respeito desse esforço de boas-vindas ao sadomasoquismo é que se trata de um reforço a um novo estilo de vida. Acima de tudo, talvez, demonstre o tipo de seqüela espiritual e intelectual que pode resultar, ainda hoje – e ainda para a maioria das mentes educadas – da ressaca do radicalismo dos anos 60. Não tenha dúvidas: por trás do comentário anódino e professoral de Coutivron sobre ausência de juízo de valor na abordagem da sexualidade humana e o sonho de Miller de “experimento corporal” feito “sem culpa ou vergonha” está a idéia de emancipação polimorfa que foi introduzida no colapso moral e político dos anos 60. Entre as inúmeras atividades falsamente libertárias que brotaram naqueles anos, nenhuma teve mais influência do que o trabalho freudiano-marxista Eros e Civilização (1966). Avidamente adotado pelos entusiastas da contracultura que queriam acreditar que o aquecimento de sua vida sexual iria apressar a derrubada do capitalismo e inaugurar o próximo milênio, traçando as linhas da poderosa luta entre “a lógica da dominação” e a “desejo pelo prazer”, atacando “a realidade estabelecida em nome do princípio do prazer” e fulminando “a ordem estabelecida da sexualidade procriativa”. Muito foucaudiano tudo isso. Tal como é a esplêndida idéia marcusiana da “tolerância repressiva” que sustenta “o que é proclamado e praticado como tolerância hoje” – Marcuse escreveu em 1965 tendo em mente as instituições que exercem a liberdade da palavra e de reunião – “a maioria delas serve à causa da opressão”. Em linguagem orvelliana: Liberdade é tirania, tirania é liberdade.

O clima radical dos anos sessenta percorre todo o livro do sr. Miller e em todas as páginas brota suas simpatias por Foucault. Com essa visão, parece natural que o sr. Miller tenha entre seus títulos o A História Ilustrada dos Rolling Stone Sobre o Rock and Roll, que ele editou, e Democracia é nas Ruas: De Porto Huron ao Cerco de Chicago (1978). Não conheço muito o trabalho anterior, mas Democracia é nas Ruas é um explícito hino à New Left e seu “sonho coletivo” de “democracia participativa”. Nesse livro, o sr. Miller está registrando a “experiências de ruptura” – “durante os protestos de ocupação, as marchas e nas violentas confrontações” – e o “espírito inebriante de liberdade” dos anos sessenta. No mesmo caminho, A Paixão de Michel Foucault é um revival daquele livro tardio, produzido com um tema francês e recheado de couro negro.

Portanto, não é surpresa que, quando o sr. Miller dá vazão a esvanecimentos do estudante revoltado de 1968, sua prosa lustrada pela nostalgia incendeie sua imaginação. É como se ele estivesse recordando sua perdida ▬ talvez nem tão perdida assim ▬ adolescência.

Nesses anos conturbados, a desordem foi se espalhando pelas ruas parisienses. Placas publicitárias foram derrubadas, sinalização de rua posta abaixo, andaimes e arames farpados destruídos, estacionamentos virados de cabeça para baixo. Montanhas de escombros eram empilhadas no meio dos bulevares. Estavam todos atordoados, mas o ambiente era festivo. “Todos de repente reconheciam a realidade de seus desejos”; algum participante escreveu, resumindo o pensamento preponderante: “Nunca antes a paixão destrutiva foi tão criativa”.

Foucault infelizmente não participou dessa primeira leva de revoltosos, pois estava lecionando na Universidade de Tunis. Mas seu amante Daniel Defert participou, e o punha informado dos acontecimentos fazendo-o ouvir um radio transistor por telefone por horas a fio. No final desse ano, Foucault foi nomeado chefe de departamento na recém-criada Universidade de Vincennes, perto de Paris. O então professor de filosofia de 34 anos pôde assim aderir aos acontecimentos. Em janeiro de 1969, um grupo de 500 estudantes tomou ostensivamente o prédio da administração e o anfiteatro em solidariedade a seus bravos colegas que invadiram e ocuparam a Sorbonne no final daquele dia. Quando a polícia chegou, ele seguiu o grupo recalcitrante que subiu ao telhado para resistir. O sr. Miller recorda orgulhosamente que Foucault apedrejava “alegremente” os policiais, mesmo estando muito “preocupado em não sujar seu belo traje de veludo negro”.

Não se passou muito tempo depois desse animado episódio, para Foucault emergir como um onipresente porta-voz da contracultura. Sua “política” era consistentemente insensata, uma combinação de tagarelice solene acerca de “transgressão”, poder e vigilância, fermentada por uma extraordinária tolice sobre o exercício do poder no dia a dia. Foucault estava cego pelo pensamento de que “sujeito” significa “sujeição”. “O significado da palavra, dizia, “sugere uma forma de poder que subjuga ou leva o sujeito a ser subjugado”. Foucault posava de partidário apaixonado da liberdade. Ao mesmo tempo, ele jamais encontrou um revolucionário de que ele não gostasse. Foi defensor de extremismos marxistas, como o maoísmo; deu suporte ao Aitolá Khomeini mesmo quando o fundamentalismo dos aitolás tomou o poder e matou milhares de cidadãos iranianos. Em 1978, examinando o período pós-guerra da segunda guerra mundial, ele indagou: “O que podem os políticos fazer quando se trata de escolher entre a URSS de Stalin e os EUA de Truman?” Achar difícil responder essa questão nos diz muito da cabeça de Foucault.

Outra coisa interessante nas idiotices políticas de Foucault é que elas fazem parecer racionais outros tipos políticos também muito esquisitos. Num debate na TV holandesa ocorrido no final dos anos 70, por exemplo, o famoso lingüista radical americano Noam Chomsky pareceu ser a voz da sanidade e moderação em comparação com Foucault. Como o sr. Miller recorda, enquanto Chomsky insistia que “devemos agir como seres humanos responsáveis e sensatos, Foucault retrucava que idéias como sensatez, responsabilidade, justiça e leis são meramente discursos ideológicos, sem nenhuma legitimidade. “O proletariado não trava uma guerra contra a classe burguesa por considerar isso uma justa causa”, continuou Foucault. “O proletariado combate a classe burguesa porque quer o poder”. É claro que essa linha de raciocínio, produzidos é claro de forma mais sofisticada, vem desde que Sócrates encontrou Thrasymachus, mas naqueles dias ninguém ouvia palavras assim tão descaradas. Tampouco existia esse tipo raro de performance. Em outro debate, Foucault classificou o massacre de setembro de 1792, no qual milhares de pessoas suspeitas de simpatias com a realeza foram cruelmente assassinadas numa carnificina impar, como um exemplo de justiça popular. Como o sr. Miller ressaltou, Foucault acreditava que a justiça serve melhor para abrir as prisões, soltar criminosos e pôr abaixo os magistrados.

Embora sendo Foucault da geração dos anos 40 e 50, seu “público” era fundamentalmente as crianças dos 60: precoces, mimados, narcisistas, plenos de imaturos sentimentos políticos, arrebatado por fantasias inviáveis de absoluto êxtase. Ele se tornou um expert em despertar os delírios narcisistas dos sixties [geração dos anos 60. N do T] através da divinização do proibido, esse cínico estratagema da filosofia francesa contemporânea. Penso que essa foi a causa principal de seu grande sucesso como guru acadêmico. Na filosofia de Foucault, o “idealismo” dos sixties foi pintado com nuance sombria. Eles demandavam pela liberação de “todas as convenções”, como insistentemente repete o sr. Miller. Em uma entrevista de 1968, Foucault sugeriu que “as diretrizes das sociedades do futuro vão ser formadas pelas experiências com droga, sexo, comunidades, outras formas de consciências e individualismos. Se o socialismo científico surgiu das utopias do século XIX, é possível que a real socialização emergirá das experiências do século XX.”

De fato, drogas foram um auxílio a que Foucault recorreu livremente em sua procura por “experiências”.  Ele usou maconha nos anos 60, mas isso nada significou até 1975 quando experimentou LSD. O sr. Miller considerou tal experiência crucial no desenvolvimento intelectual do filósofo; o mesmo aparentemente achou Foucault, que descreveu o fato com fortes palavras de louvor. “A única coisa na minha vida comparável a essa experiência”, ele disse na época, “é fazer sexo com um desconhecido. (…) O contato com o corpo de um desconhecido produz uma experiência da verdade similar ao que eu estou experimentando com a droga”. “Eu estou agora entendendo minha sexualidade”, concluiu. Parece que esse fato ocorrido no Death Valley foi realmente significativo para Foucault. Vários acontecimentos galvanizados por essa primeira experiência de Foucault com alucinógenos, ele deixou de lado nos volumes não-publicados da História da Sexualidade ▬ uma pena! Como Miller notou, existiam milhares de páginas “de masturbação, de incesto, de histeria, de perversão, de eugenia: todos os capítulos importantes da filosofia do nosso tempo”.

1975 parece ter sido o annus mirabilis de Foucault. Foi marcante não apenas pelos prazeres proporcionados pelo LSD, mas também pelas suas incursões pela Bay Area da Califórnia e sua introdução no mundo da subcultura sadomasoquista de São Francisco. Foucault já tinha “experimentado” o S&M [sadomasoquismo] antes ▬ de fato, essa inclinação lhe custou o relacionamento com o compositor Jean Barranqué. Mas ele jamais encontrou nada tão estimulante como as coisas que São Francisco lhe oferecia. De acordo com o sr. Miller, o filósofo, então com 50 anos, achou a cidade “um lugar de excessos de tirar o fôlego, que o deixava literalmente sem palavras”. As incontáveis casas de banho homossexuais proporcionavam a Foucault reencontrar com a fascinação da sua vida com o ‘impressionante, o indizível, o arrepiante, o estupefaciente, o extasiante’, ‘enlaçando-se à violência pura, ao ato sem-palavras’.”

Como sempre, o sr. Miller apresenta a inclinação de Foucault para práticas sadomasoquistas como uma nobre batalha existencial por uma grande sabedoria política de liberação.  Mesmo sendo o sadomasoquismo um tópico que o sr. Miller desde o início do livro discutiu, sua maior abordagem ao tema aconteceu em um capítulo que denominou “O futuro do saber”. “Aceitando um tipo de risco”, escreveu o sr. Miller, “Foucault se esbaldou novamente em orgias de torturas, trêmulo nas mais excitantes agonias, voluntariamente anulando-se a si mesmo, extrapolando os limites da consciência, permitindo as dores corporais, sendo gradativamente derretido nos prazeres através da química erótica.” … “Através da intoxicação, da fantasia, do dionisíaco abandono do artista, pela maior procura por práticas nada ascéticas e uma desinibida exploração do erotismo sadomasoquista, parecia possível abrir, mesmo que fugazmente, as fronteiras entre a consciência e o inconsciente, entre a razão e a desrazão, o prazer e a dor e, por último, entre a vida e a morte.  – e assim, claramente revelar que o jogo essencial entre o verdadeiro e o falso é manipulável, incerto e contingente”.

Muitas vezes o sr. Miller aparenta ser um sóbrio jornalista investigativo. Mas basta mencionar a palavra “dionisíaco” e tudo vai por água abaixo.  Suspeito que isso é um reflexo, adquirido do também exagerado Alan Watts e outros produtores de mitos. Como o cão de Pavlov não pode deixar de salivar quando ouve o som da sineta, o sr. Miller também não consegue deixar de dizer algum disparate quando escuta alguém fazer menção a Dionísio.

Nada infelizmente nos poderá “jamais dizer” exatamente o que Foucault fez enquanto explodia os limites da consciência e apagava os limites entre a dor e o prazer, entretanto o sr. Miller fez uma descrição particularmente terrível do submundo das atividades sadomasoquistas que Foucault freqüentava, um mundo onde existem, entre outras atrações, “mordaças, penetrações lacerantes, mutilações, choques elétricos, tortura por alongamento, encarceramentos, castigos e chicotes” … “Dependendo do clube”, diz ele respeitosamente, “o sujeito pode saborear a ilusão de bondade – ou a experiência das mais cruéis torturas físicas”. Foucault se imiscuiu nesta cena com um entusiasmo que deixou atônitos seus amigos; rapidamente adquiriu um enxoval de roupas de couro e, “para brincar”, uma variedade de grampos, algemas, capuzes, mordaças, chicotes, porretes e outros “brinquedinhos sexuais”. (continua)

Meteoro e fim do mundo: o que fazer?

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O diretor da NASA, Charles Bolden, causou um reboliço ao dizer que nada há que se fazer além de rezar caso um meteoro gigante esteja em rota de colisão com a terra. Em pronunciamento na Câmara dos representantes dos Estados Unidos ele chocou ao fazer essa afirmação sem meias palavras.

Muitas pessoas acharam um absurdo que um homem da ciência, de poder, de estratégia,, tenha a oferecer apenas “oração”, ou seja, nada de concreto (como muitos intuíram). Rezar é o mesmo que apelar aos mitos, aos velhos deuses que nada fazem senão “guardar de mentirinha” os ignorantes desprovidos do conhecimento dos artifícios científicos.

Bem, o que me espanta é ver como as pessoas têm fé na ciência. Como elas têm uma inabalável esperança de que a razão, o poder e a técnica darão respostas a tudo.  Eis o mito moderno: o absolutismo tecnicista de uma ciência tão famigerada quanto seletiva em suas apreensões.

A questão é terrivelmente simples: o homem não tem e não terá, jamais, solução pra tudo. O homem é um sujeito desamparado em grande medida, só não se dá conta ou não aceita isso. Quando as pessoas sofrem ataques de pânico e ansiedade é porque elas se dão conta, mais ou menos, dessa dura realidade. É como se a cortina que tampa esse caos fosse desvelada por um instante.

Então os homens da razão pura (ao modo kantiano) trocaram as esperanças metafísicas pela física tecnicista. Se a oração é a esperança dos pobres desamparados, a ciência (médica, jurídica, matemática, política etc) é a esperança de pobres homens que não se enxergam tão pobres assim (não aceitam sua contingência).

Se Bolden tivesse dado uma noticia malandramente política, teria acalmado os ânimos a custa de ilusões, teria dito assim: “fiquem tranquilos nada acontecera de ruim com nosso planeta. A ameaça dos meteoros é verdadeira, mas já estamos construindo uma super arma que destruirá o perigo”.  As pessoas ficariam mais felizes, elas agradeceriam por essa doce ilusão, por uma mentira apaziguadora. Somos assim, somos assim…

O mito do super homem de Niezstche ainda nos seduz. Preferimos crer que a medicina descobrira a cura de todas as doenças, que a política dará conta de equilibrar consumo, recursos naturais, mercado e qualidade de vida por mais alguns milênios, que na esteira darwiniana evoluiremos até nos tornarmos seres perfeitos ou simplesmente melhores adaptados até um tipo de super-ser… cremos, cremos e cremos nessas coisas todas, por talvez acharmos pouco a minguada reza, por que a escatologia cristã parece apenas um circo de gente impressionada com aquilo que simplesmente não sabe explicar.

O homem segue sendo arrogante. Não reconhece limites, não aceita o absurdo, o não conceitual, aquilo que não se explica e não se resolve. Nosso narcisismo, ainda, segue em alta.

Quando Charles Bolden disse que o que resta em um caso desses é rezar, ele não dava provas de sua grande piedade e religiosidade, mas tão somente de uma honesta constatação tão insuportável: somos impotentes! Não somos tão poderosos como queríamos ser. Ainda vivemos a custa de uma grande sorte, de uma lógica que – simplesmente – nos ultrapassa.

P.S: No país das maravilhas o político inventaria o quite salva-vidas. A custa de um “votinho” ele lhe garantiria abrigo seguro nas fortalezas subterrâneas de direito ´parlamentar. Já o religioso “bem intencionado” a custo de um dízimo de 50% (esqueça que dizimo sugere 10%, pois meteoro custa mais pra resolver), lhe daria alguns lencinhos umedecidos de suor que é tiro e queda contra queda de meteoro gigante.

*Rodrigo Virtuoso F Leal