Saúde salterológica

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 “Que seu remédio seja seu alimento, e que seu alimento seja seu remédio”

“A arte é longa, mas a vida é breve.”

Hipócrates

Estava pesquisando algo ligado a alimentação no youtube e ao ouvir a explicação de um médico especialista tive a sensação de ouvir um pastor pregando a salvação. A certa altura ele disse “é preciso mudar de vida” e mais adiante completou “se você deseja uma verdadeira transformação ouça o que vou lhe dizer” e com ares de profeta ele foi dando sentenças e citando códigos que mais se parecem com cânones.

Os médicos sempre foram divindades, mas há uma classe que não era tão afamada como hoje: os nutrólogos! As receitas de saúde facilmente se apresentam como fórmulas de eternidade. Nossa perspectiva de vida aumentou e com ela nossa ilusão de perenidade do corpo.

Cada vez mais essa quase “seita” capta mais adeptos e legionários altamente fiéis e atentos as divinas instruções. É um grande e rentável mercado que cresce abundantemente: boa alimentação, medicamentos naturais, suplementos de todo tipo, estilo de vida, bem-estar, academia, parecem engrenagens de uma mesma lógica.

A raiz da questão me parece o culto da matéria ou do corpo. Somos cada vez mais materialistas. Com a desmontagem da metafísica, demolimos ou ao menos deslocamos o uso do sentido da vida. A alma imortal tão debatida entre os gregos e depois entre os cristãos não está mais em questão. E se, hoje, não chegamos a discutir abertamente a imortalidade do corpo rumamos de alguma forma pra isso, depositando toda nossa fé e esperança em alguma descoberta científica.

Nossa alimentação e nossa saúde se tornaram um fronte dessa batalha. Batalha essa que tenta alinhar o bem e o mal. Se perdemos o interesse no diabo e nos seus sequazes que nos levavam ao mal, por outro lado muito nos interessa as maquinações sombrias das indústrias alimentícias que nos entopem de produtos cheios de conservantes e elementos cancerígenos. Nos defendemos das obras das trevas “fastfood”. Há vários profissionais da saúde que impõem os alimentos bonzinhos e cheios de vida   e os alimentos malignos que só causam a morte. E num tom grave, olhando para câmara afim de atingir a alma do espectador, desafiam: aqui está o bom caminho e aqui está o mal caminho, escolhe pois a vida. E depois dessa pregação não há quem possa comer a gordura da picanha sem medo do infarto. Não há como ter prazer sem pensar nas punições. E, os mais desviados e rebeldes, apenas dizem em tom nada filosófico: “ah! vou morrer mesmo, ao menos vou comer bem”.

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As academias viraram epidemia. A saúde virou culto. O alimento virou objeto sagrado. O médico nutricionista virou guru. O corpo virou meta de salvação.

As pessoas em rodas de conversa e quando estão dando aquela colherada de gostosuras fazem confissões dramáticas do tipo “nossa, esses dias comi muita coisa, preciso voltar para dieta”. É notório o peso da culpa a lá “Crime e Castigo”. Penso que logo logo vão criar um tipo de confissão e absolvição com o nutricionista: eu te absolvo de todas as gorduras comidas e de todas as massas desmedidas em nome da alface, do tomate e azeite e como penitência passará uma semana só com saladas e grãos. Amém! De sermos corruptos, ambíguos, dissimulados, egoístas etc, já superamos a culpa. Essas coisas não são mais tão graves como se empanturrar de alimentos pecaminosos.

É claro que não estou aqui fazendo apologia à “heresia” alimentar. Não sou tão promíscuo. Não sou um pecador tão contumaz assim. Prezo pela boa alimentação e pelo regramento da boca. Mas não me escapa que a linguagem atual do nutricionismo tem tons de salteriologia e nos fazem comprar mais uma fantasia medíocre: a perenidade do corpo. Enquanto nos preocupamos tanto em durar mais tempo e gastamos energia nessa busca de uma “terra prometida” sem ocaso, nos esquecemos de fazer a vida realmente valer a pena em sua brevidade.

*Rodrigo Virtuoso F.Leal

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3 comentários sobre “Saúde salterológica

  1. Ótimo texto, gostei dessa visão… Pra mim essa nossa atitude de ter receita pra tudo, o ser “politicamente correto” em tudo (até na alimentação) revela que a nossa sociedade está cada dia mais regrada. Quero ver onde isso vai parar.

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  2. Muito bom, Rodrigo! Achei sua abordagem interessantíssima. Estamos caminhando pela estrada deste modo de pensar/agir há algum tempo e não apenas no que se refere a alimentação e saúde.
    Dalai Lama já havia nos alertado sobre esse “estranho” modo humano de ser: os homens “perdem a saúde para juntar dinheiro, depois perdem dinheiro para recuperar a saúde … vivem como se nunca fossem morrer… e morrem como se nunca tivessem vivido.”

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