“Hello. What’s your name?”: como desconhecer uma pessoa completamente

Aquele tradicional e já superado diálogo das aulas de inglês -que ninguém suportava e nem aprendia nada: a não ser a desgostar do inglês- que nos ensinavam (?)… Mas lembro-me de uma professora que morou nos States falar sobre o interesse dos americanos pelo status. As formalidades de cumprimentos são banais, mas são uma maneira eficaz da gente não se mostrar.

Aquilo que sou não se restringe a profissão, folha de pagamento e a quantos carros e casas tenho em meu nome. É verdade, porém, que é muito mais fácil falar desses “títulos de nobreza”. Por que, de fato, há gente tão empobrecida que só possuem essas coisas: falar mais do quê? E se depois de exibirmos os títulos precisarmos falar mais alguma coisa? vamos acabar de encher a tripa da linguiça com mais algumas banalidades para não escutarmos o grilo cantando (porque se tivermos de falar de coisas da ordem do “ser” vamos, facilmente, só ouvir a trilha sonora do grilo que esteja nas redondezas para nos salvar do vazio absoluto).

Mas falar do ser é conversa fiada, poético demais – ou trágico demais -, o mundo “real” das contas a pagar não dão espaço pra isso. Ou, talvez, o mundo “real” do ser seja tão sofrido ou vazio que é melhor falar de coisas.

Diálogo de um contemporâneo com Sócrates:

– O que você faz? Tá empregado? E a crise?

– Que crise? Existencial?

– É claro que não. Financeira. Em que mundo você vive?

– Vivo dentro de mim a observar o mundo e suas ansiedades que mudam sempre sem se esgotar.

Não é a toa que mataram Sócrates: pessoas assim são insuportáveis já faz tempo.

sc3b3crates

*Rodrigo

Anúncios

O coelho da cartola: do bafômetro à anistia política

8733127_jkyzn

A corrupção dos governantes quase sempre começa com a corrupção dos seus princípios.

Barão de Montesquieu

Uma grande descoberta da alta experimentação dos brasileiros pode revolucionar seu final de semana: vinagre burla o teste de bafômetro! Os bebedores de plantão podem continuar a gozar na bebedeira sem se preocuparem com fiscalização. Porque o que de fato importa não é se você não tem condições “técnicas” de dirigir sob efeito de álcool, podendo se matar, e pior,   matar os outros; mas se você vai ser pego no impertinente bafômetro – que nada sabe sobre sua real eficiência no volante. E, claro, porque uma vez pego numa infração desse tipo tudo se complica para seu bolso e para sua carta de salvo conduto de quatro rodas.

Quando vejo políticos manobrando uma lei pra se safarem de todas as tramoias e espertezas com o nome de anistia, não me escandalizo tanto.  Dá uma revolta? Dá! Mas sigo fixo na ideia de que essa não é atitude só de políticos, mas de homens sejam eles quem for. Os homens são dados as essas espertezas. Acho que depende muito do tamanho do poder e da visibilidade dele.

Somos muito hábeis em tirarmos coelhos da cartola. Quando parece que o cerco da fechando e todo mundo vai pagar pelo mal que fez… um coelho sai do nada!

Existem várias historinhas que circulam aqui e acolá nos falando sobre a gravidade desses pequenos delitos frente à verdade e a honestidade.  São “bacaninhas” e tal, mas na maior parte das vezes não passam de historias com fundo moral. Outras vezes as achamos muito pertinentes, porém, nos projetamos no aprendizado alheio: fulano podia ler essa história. Ou ainda, entendemos tudo direitinho, mas ao nos reportarmos aos exemplos concretos da vida só pensamos nas escorregas do vizinho.

Não me interesso pelo vinagre mágico, nem pela anistia mágica que faz desaparecer todas as “tretas” políticas por que não sofro dessas coisas, mas bem que poderia haver uma magia para… É melhor parar por aqui!

*Rodrigo Virtuoso F. Leal

Vidas

paraisopolis_1_1224

Há vidas tão planejadas e milimetricamente traçadas que se parecem com Brasília: grandes retas, nenhuma rua sem saída, um cenário quase artificial. Brasília, tirando o João de Santo Cristo, não é destino pra ninguém. É cidade de políticos e diplomatas, algo muito arranjado.

Há outros, no entanto, possuem uma vida altamente passional, improvisada, repleta de becos e ruelas tal como uma favela. Uma vida cheia de emboscadas e surpresas, de agito e algazarra, de ansiedades e euforias, mas também de perdas trágicas e carestia.

Entre Brasília e a favela deve haver um lugar. Uma vida movida de razão e paixão, de coerência que não perde o interesse pelas urgências humanas. De organização sem ser chato ou opressivo. De segurança, sem perder a alegria e o gozo de ser surpreendido…

Acho que procuro uma vida “Shangri-La”.

*Rodrigo Virtuoso F. Leal

 

O hábito e o vício

Huxley1.gif

A maioria dos devassos é devassa não porque goste da devassidão, mas sim porque sente mal-estar quando se priva dela. O hábito transforma os gozos esquisitos em necessidades monótonas e cotidianas. O homem que adquiriu o hábito das mulheres ou do gin, de fumar ópio ou de suportar a flagelação, acha tão difícil viver sem os seus vícios como viver sem pão e água, mesmo quando a prática do vício se possa ter tornado em si mesma tão despida de sensação como comer uma fatia de pão ou beber um copo de água da pia. O hábito é tão fatal para o sentimento da prática do mal como para o gozo ativo. Depois de alguns anos o judeu convertido ou cético e o hindu ocidentalizado podem comer carne de porco e came de boi com uma serenidade que para os seus irmãos ainda crentes parece brutalmente cínica. Passa-se o mesmo com o devasso habitual. As ações que a princípio se afiguram emocionantes, excitantes na sua maldade intrínseca, tornam-se, depois de um certo número de repetições, moralmente neutras. Um pouco desgostantes, talvez, porque a prática da maioria dos vícios e seguida de reações fisiológicas deprimentes; mas que já não são “más”, porque se fizeram costumeiras. É difícil uma rotina dar a impressão de maldade.

Contraponto – Adouls Hexley

O ato secreto

amor-amando

Estava olhando aquela porta se abrir com muita ansiedade. Desde nosso último encontro, algo ficou suspenso e sabia que voltaríamos aquele ponto. Minhas mãos suavam, meu coração se agitava como um cavalo de corrida esperando a largada. Eu não sabia o que faria quando passasse daquela porta, mas estava disposta a tudo. O desejo de fugir se alternava com uma excitação em permanecer. Não sabia bem se o que estava prestes a fazer era certo ou errado, era verdadeiro ou apenas mais uma ilusão. Depois de quinze minutos eternos ele abriu a porta, dispensou uma outra e acenou para mim sutilmente. Atravessamos um pequeno corredor onde trocamos algumas palavras. Depois adentramos por outra porta para dentro de nossa câmara nupcial. Da outra vez chegamos quase lá, mas fiquei muito reticente e não pude continuar, ainda não estava pronta para me entregar. Ele era muito sedutor, seu olhar sempre penetrante, sua voz muito envolvente, tudo nele me atraía fortemente, mas quando pensava em não resistir mais, vinham-me a memória as lembranças passadas, de como fui machucada e usada, atiraram-me no círculo dos escarnecedores depois de ter confiado como uma donzela inocente. Meus amantes confidentes eram também meus algozes. Já ele não forçava nada, mas convidava-me pouco a pouco. Nesse flerte ao som de uma melodia interior ousei; e logo em seguida pensei bem e por vezes tinha a sensação de que seria violada. Tinha medo de que ele – também – só quisesse aquilo e depois se desinteressasse por mim. Novamente estava ali, olho no olho, ouvindo até mesmo a respiração. O clima naquele lugar à porta fechada estava saturado de tensão “pré ato”. Agora não mais fugiria, ele era diferente dos outros, era o homem certo. Como uma virgem acanhada esperei que ele tomasse a iniciativa e depois de carícias – ele sabia não ir direto ao ponto para não parecer indelicado – e deliciosas preliminares, enfim deixe-me penetrar: revelei a ele o meu mais guardado e protegido segredo! Disse, enfim, depois de tantas sessões aquilo que parecia óbvio mas que recusei por tanto tempo: sou imperfeita e carrego muitas obscuridades. Aliviei-me ao dizer, como num grande orgasmo. Enfim chegamos ao ponto: “falei ao meu psicólogo de mim, despida de tantas máscaras discursivas”. Senti o peso daquela obscenidade. Deixei de lado meus disfarces, lancei fora minha roupa social e, nua, não pude fazer outra coisa senão me entregar.  Me senti desprotegida, sem nada para encobrir minha vergonha. O medo do julgamento só durou até falar. Estava a beira do abismo e arrisquei pular. No salto já não pensava mais nada, apenas sentia a sensação de queda livre. Depois do ato e já vestida novamente olhei-o nos olhos e não senti vergonha: meu segredo ficará bem guardado com ele, mas já não é tão ameaçador. Posso suportar quem sou… me perdoo por ser quem sou. Se ele não se espantou, se ele não me rejeitou, então posso me aceitar! Trocamos mais algumas palavrinhas sem muita importância e ele conduziu-me até a saída e com aquela habitual despedida me disse: nos vemos na próxima semana!

despida

 *Rodrigo Virtuoso F. Leal