Arte Suja: sobre política, religião, morte do pai, metafisíca, ethos, imanência, urubu, feijoada, cu…

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A arte não é um espelho para refletir o mundo, mas um martelo para forjá-lo.” Vladimir Maiakovisk

“Eu acho que o mundo não tem sentido mesmo. O sentido é inventado” Ferreira Gullar

“O homem é seus valores. Porque sem valores eu não sou nada”. Ferreira Gullar

(Sobre Sarte: a vida é um caminho para a morte) “O que tu me dá para viver? Só fica esfregando lama na minha cara” Ferreira Gullar

…”uma traição a integridade intelectual é acreditar em algo por ser útil e não por ser verdade”. Bertrand Russell

Vou me valer de uma pequena crônica (não garanto que ao fim do texto esteja lá uma crônica mesmo: duvido muito!) pra falar de assunto que precisaria de um tratado. O assunto pelo qual padeço e me compadeço não tem nome, ao menos não tem um nome exato. O que aqui pretendo tratar é algo intricado, com imbricações tão vastas que não se pode criar um catálogo sem incorrer em inexatidão.

Pretendo desdobrar esse texto em outros dois ao menos, para ver se ao fim uma silhueta desse “bicho disforme” se apresente.

Tudo começou a fervilhar na minha cabeça com o episódio do Queermuseu promovido pelo Santander com financiamento da lei Rouanet.

Muitos pensadores e gente comum (filósofos, youtubers, políticos, representantes de movimentos etc) deram seus pitacos na internet sobre o assunto. Mas do que se trata esse episódio largamente comentado, despertando paixões e reações tão dispares? É sobre arte? É sobre política? É sobre posições políticas? É sobre arte como meio de estabelecer posições políticas? É sobre esquerda ou direita? É sobre minorias e opressão? É sobre fé e profanação? É sobre moral e imoralidade? É sobre o convencional e o bizarro? É sobre impostos e governo? É sobre o movimento LGBT e fanáticos? É sobre censura e liberdade? É sobre… esse texto será confuso – mais do que costuma ser – porque seu conteúdo é tão complexo quanto sua problematização. A indefinição do objeto de especulação é tal que me arrisco a dizer apenas que vejo, pretensamente, que o núcleo de um pandemônio como esse se desdobra e se revira sobre a ideia do “ethos” do homem ocidental.

Representações de Hóstias com palavras chulas escritas nelas, um Jesus crucificado a moda de Shiva de Fernando Baril são uma parte da mostra que reunia mais de duas centenas de obras de oitenta e cinco artistas. Mas as que repercutiram com acusações de vilipendio a fé e apologia à pedofilia e zoofilia, creio, não passam de duas dúzias (o que não é pouco).

Não podemos relegar essa discussão a uma questão de carolice religiosa, de gente cheia de pudor que não suporta o choque da realidade. De gente pequena incapaz de assimilar as grandes questões e as atitudes arrojadas de um outro tipo de gente mais moderna e, portanto, mais inteligente (o silogismo aqui é irônico).

O que me parece muito claro e óbvio em toda essa querela e que quase nunca é assumido ou debatido a céu aberto é que “o ethos cristão que foi forjado nos últimos dois milênios vem sendo confrontado e recusado (ás vezes com grande truculência e desafeto) mais intensamente,pelo menos, nos últimos três séculos”. O mundo ocidental se cansou de ser cristão, está desgostoso disso. Ele primeiro se cansou de ser cristão à moda antiga e invencionou maneiras mirabolantes de ser cristão com roupagens novas, desconstruiu muita coisa, colocou novos ingredientes, fez novos anelos com os costumes pagãos, flertou com a maneira de ser do mundo, mas ao fim, ainda assim, sentiu asco de tudo isso e está recusando o que herdou.

Há um movimento paralelo e imbricado nesse: a recusa da autoridade! A indisposição com o signo do pai. O pai se tornou a figura da tirania, daquele que oprime, que tem todos os direitos e dita todas as regras à revelia de todo sentimento e desejo filial. Um “complexo de édipo” em níveis sociais para além da infraestrutura familiar, chegando ao trono do poder político. Essa derrubada do pai ou esse parricídio à moda dostoieviskiana (Irmãos Karamazov) e freudiana (Totem e Tabu) está descaradamente manifestado em tudo isso.

Historicamente, porém, não podemos esquecer que a derrubada do poder de um monarca ou presidente, quase sempre, é procedido de algum tipo de fratricídio, de derramamento de sangue em guerras civis e em tiranias que se erguem na vacância do poder, do norte, da ideia de verdade, bondade e beleza.

Se o personalismo do pai pode, em sua corrupção, se degenerar em algum tipo de absolutismo e opressão, existe sempre uma ameaça, um espectro que assombra o nivelamento fraterno e deságue em disputas sangrentas entre irmãos. A harmonia social não é obra de um esforço por igualar as coisas guiados pelo ingênuo instinto de desconstruir tudo. Depois do fim, quando só restar ruínas e um vazio, teremos que construir um novo ethos, mas esse também – ainda que perpassado pelo culto da subjetividade – será, em alguma medida, arbitrário.  A provocação de Vattimo ao dizer que somente um deus relativista pode nos salvar, faz algum sentido frente às escolhas drásticas do homem contemporâneo.

A arte conceitual não quer se haver mais com objetividade, com a ordem das coisas e muito menos com qualquer busca de sublimidade e transcendência. A imanência é a regra de vida contemporânea: sintomaticamente cresce a sede pelo transcendente frente a seca de tais paragens espirituais.

O homem matou “Deus” porque pretende ser deus de si. E tudo o que represente ordem, moral, convicção, certeza, absoluto etc., lhe parecerá ofensivo quando não obsoleto. Num panteão de deuses tiranos, Prometheus (antevisão) parece ser herói, mas é preciso estar pronto para confessar que num céu onde Deus é amor e vida, Prometheus é um transgressor que padece de sua própria ousadia emancipatória (como se livrar do amor?).

A arte, portanto, nesse fim de tantas desconstruções é algo grosseiramente subjetivo, não causa espanto e não pode representar algo de mais elevado. De outro modo é, desgraçadamente, uma miragem de si. Sua pretensão de ser dialógica, na ausência de aquiescência popular se revela imponderada, histérica, colocada goela abaixo, gritante, impositiva, escolar, pedagógica, normativa e politizada.

Tolstoi malogrado em seu conceito de arte (“arte é um dos meios que une os homens”) se esqueceu de mencionar que arte é, também, um dos meios que separa os homens. Na verdade a arte, como tantas outras formas de linguagens, de construções, de percepções e ideais é uma maneira de escoar e comunicar nossas convicções e escolhas mais profundas: aquelas que confessamos e aquelas que jamais confessaremos.

Findo esse texto com a confissão de um dos artistas que teve sua obra exposta no Queermuseu. Isso importa muito! Pensar a obra sem pensar o autor e suas intenções mais secretas e propulsoras é uma admiração esquizofrênica. Esse sucinto relato poupa o curador dessa exposição de tentar explicar o inexplicável ou de confessar o inconfessável.

Fernando Baril ao Jornal Zero Hora: “”Era uma semana santa, e eu estava lendo sobre as santas indianas, então resolvi fazer uma cruza entre Jesus Cristo e a deusa Shiva. Deu aquele montaréu de braços carregando só as porcarias que o Ocidente e a Igreja nos oferecem. Certa vez, Matisse fez uma exposição em Paris e, na mostra, tinha uma pintura de uma mulher completamente verde. Uma dama da sociedade parisiense disse ‘desculpe, senhor Matisse, mas nunca vi uma mulher verde’, ao que Matisse respondeu que aquilo não era uma mulher verde, mas uma pintura. Aquilo não é Jesus, é uma pintura. É a minha cabeça, ponto. Me sinto bem à vontade para pintar o que quiser.”

Todas aquelas representações estão conectadas com formas, com vivências, reminiscências, traumas, convicções e revoltas que seus idealizadores trazem dentro de si enquanto estão desenvolvendo sua criação. E tais eventos interiores são comunicados de alguma forma na materialidade de suas obras. O ajuntamento dessas obras de “arte” num espaço não foi obra do acaso, do caos ou da coincidência, mas de uma intenção, de um discurso arquitetado que carrega sim uma mensagem e uma apologia. Aqui se trata de posições de vida, de escolhas e mesmo de condicionamentos e muitas inconsciências.

Como dizermos daquilo que pensamos, como nos posicionar no debate público sem com isso conquistarmos de imediato o ódio alheio? Me parece que o discurso sobre inclusão e diversidade não surtirá efeito algum enquanto no fundo e de fato formos internamente intolerantes e segregadores.

Com a queda do governo em nosso país estamos digladiando para ver quem prevalece. Tudo é um ato político, sempre foi, mas só agora se torna tão evidente. Estamos aqui querendo ocupar cada espaço de opinião pública. Queremos arrastar os outros aos nossos padrões. Queria acreditar que os irmãos de pai morto podem chegar à serenidade sozinhos, queria acreditar que seremos maduros o suficiente para vivermos todos felizes na diversidade e na pluralidade, mas isso seria mentir mais uma vez. Não podemos e não iremos. Há muito em jogo em tudo isso. A arte não é somente arte. E a exposição, portanto, pende sobre si todo um universo de coisas que por ora se encontram acaloradas e desequilibradas.

A moda messiânica (me fingindo de profeta para não confessar que sou louco) encerro dizendo que com esse texto não vim trazer respostas e clareza, mas confusão e rupturas.

“A arte é o espelho e a crônica da sua época.” William Shakespeare

“A arte é a mentira que nos permite conhecer a verdade. ”Pablo Picasso

“Arte pra mim não é produto de mercado. Podem me chamar de romântico. Arte pra mim é missão, vocação e festa”. Ariano Suassuna

 

Rodrigo V. F. Leal

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