Uma política cinzenta

Se ao menos houvesse gente ruim por aí, insidiosamente fazendo o mal e fosse necessário apenas separá-las do resto de nós e destruí-las. Mas a linha que divide o bem do mal passa pelo meio do coração de cada ser humano. E quem está disposto a destruir um pedaço de seu próprio coração?

Alexander Solzhenitsyn

Nosso cenário político brasileiro segue polarizado. O frenesi das ruas entre sim e não, entre bandidos e heróis construídos a partir de uma inocente mentalidade que é defendida entre berros, rancores e imensuráveis dissabores; só me faz crer que o homem é um desconhecido de si e que vive projetando na realidade circuncidante seus medos e sombras, bem como seus sonhos e devaneios pueris.

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É sempre mais fácil crer e ver o preto no branco, mas é verdade também que é sempre uma visão mais rasa e apaixonada. Bom seria podermos identificar o joio no mundo para arrancá-lo e tocar fogo. A realidade, porém, é que joio e trigo se misturam e se confundem.

Os revolucionários de plantão quase sempre tem um plano de mundo melhor quando suas vidas afundam em frangalhos e fracassos existenciais. De outro lado, porém, os sentinelas dos velhos e bons costumes, que veem seu mundo idílico ser ameaçado por uma devassa força externa, quase sempre, é um túmulo vazio ou na verdade um túmulo cheio de fetiches e obsessões perversas que ele esconde sob a bandeira do “cidadão de bem” .

Velhas promessas, velhos sonhos com ares de novo, velhos medos e velhas esperanças. Que homem é esse que quer mudar o mundo para não mudar a si? Que quer amordaçar o outro porque imagina que vê a luz? Que ridiculariza o outro com suas concepções porque não consegue, nem por um segundo, duvidar das próprias convicções absolutistas e impermeáveis.

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Nessa história nem fatos, nem evidências, ou provas, gravações, testemunhos, podem flexibilizar a posição irremovível das ideologias. Não se trata do razoável, do intelectível, do dialogal ou da boa vizinhança, mas da cegueira, da inconsciência, do medo e do desespero que nos corta e que nos faz agir com toda força de tudo aquilo que recusamos.

Somos cinzas e nossa politica também é cinzenta.

*Rodrigo Virtuoso F. Leal

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