Gosto não se discute!? Política, religião e futebol

Me parece que política, religião e futebol não se discutem porque são coisas altamente passionais em nossas vidas.  Como se discute paixão? Será sempre algo tendencioso, dissimétrico e inflamado. Quando é assim perdemos a capacidade racional mais equilibrada, não fazemos uso do bom senso e – sem chances –  não somos imparciais (à medida ao menos de nos colocar fora da suspeita da preferência).

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Da crise política atual em nosso país vejo um ponto interessante (acho): as pessoas estão mais interessadas na política (coisa essa sempre muito demonizada e exorcizada de nossas vidas). Infelizmente, esse interesse vai muito na esteira dos clichês, das caricaturas, do escárnio e zombaria, da gritaria e dos palavrões. Os políticos se portam como gladiadores pouco másculos e nós – perfeitamente – como as arquibancadas ávidas por sangue.

Tenho a impressão de que certa política partidária esta em crise, estamos avessos a esses interesses de bandeiras mais restritas, porém, estamos criando dois grandes eixos mais ou menos simplista “direita e esquerda”. E nessa alternância de bem e mal, queremos adjetivar as pessoas de inimigos e colocá-las no paredão para silenciar suas ideias. Uma coisa fica muito claro em meio a tudo isso: somos altamente intolerantes, cruéis, de visão estreita, pouco interessados na verdade (senão na nossa verdade), parciais, tendenciosos… e por ai vai.

Por outro lado não sei se dá gosto política, religião e futebol sem paixão alguma. Eleitores, fiéis e torcedores sem paixão alguma não fica bem. As grandes massas precisam de pitadas de paixão, senão ficam insossos demais. Aplicar ascetismo de mestres “zen” nessas paixões populares pode torná-las improdutivas. Equilibrá-las a custa de relativismo e de niilismo é algo muito arriscado também. Crer em algo de forma estreita é, muitas vezes, a única forma de sentido de muitas pessoas e retirar isso é colocá-las na beira do abismo com grandes chances de pular.

Não me escapa, porém, que preferiria pessoas com um senso de equidade, verdade e equilíbrio, para além de suas escolhas passionais. Pessoas que fossem capazes de sacrificar seus próprios gostos e “achismos” em nome de algo maior, que lhes ultrapasse o próprio umbigo existencial.

Mas o que se vê não é isso. Os paladinos do diálogo querem mesmo é calar quem pensa diferente deles. A alteridade sempre foi e continua sendo uma coisa difícil de se respeitar de fato. Por isso o autoritarismo é mais fácil para esquerda ou direita. Para todos é fácil degenerar em absolutismo, somos assim nos micro governos e micro sociedades: família, grupo de amigos, Igreja, escola, empresa etc.

O outro “real” nos é infernal como postulava Freud e Sartre. Gostamos de jargões abstratos, mas quando esta a nossa frente esse outro de carne, osso e ideias (contrárias as nossas) quase sempre achamos que o que ele pensa é imbecilidade. No íntimo sempre queremos criar mordaças para os outros que nos contrariam.

E o mundo segue sendo mundo: ninguém assume seus erros, ninguém admite falhas, ninguém fala de seus próprios embaraços e todos seguem entretidos atacando os tropeços alheios porque, parece, isso dá mais dinamicidade à mediocridade de nossas insignificantes vidas.

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*Rodrigo Virtuoso F. Leal

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A filosofia irritada – última entrevista com Cioran

Pouco antes de morrer em Paris, em junho de 1995, o filósofo romeno Emile Michel Cioran deu esta entrevista ao escritor alemão Heinz-Norbert Jocks, publicada no nº 5 da revista Kulturchronik, editada em Bonn pela InterNationes.

Apresentamos os trechos mais importantes desta conversa em que o autor de “Silogismos da Amargura”, “Breviário da Decomposição” e “História e Utopia”, entre outros, fala da morte, do tédio, de sua juventude, do escritor Samuel Beckett e do início de sua ligação com a filosofia. Cioran foi um dos autores mais corrosivos e polêmicos do século XX, colocando em xeque as pretensões racionalistas e tecnicistas da civilização ocidental, assim como os dogmatismos religiosos. Seus livros são escritos com fúria e beleza, muitas vezes resvalando pela linguagem poética, através de aforismos.

Cioran nasceu em Rasinari, Romênia, em 1911, mas desde jovem radicou-se em Paris. Considerado um filósofo niilista radical, enfrentou com insistência, em seus textos, os temas do desespero, da solidão e do vazio que ronda o homem contemporâneo. Normalmente é colocado ao lado de pensadores como Pascal, Kierkegaard e Nietzsche.

Tradução do espanhol: Reynaldo Damazio

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Qual o significado de sua vida na Romênia, de sua infância?

A Romênia foi um paraíso terrestre, isolado de tudo e cercado de escravos. Só ia para casa para comer e dormir, senão passava o tempo todo fora, ao ar livre, muito simples. A metade do povoado vivia nas montanhas, nos Cárpados. Eu tinha amizade com os pastores e gostava muito deles. Era um outro mundo, além da civilização. Talvez porque viviam em um país de ninguém, sempre de bom humor, como se todos os dias fossem dias de festa. O começo da Humanidade não deve ter sido tão ruim, segundo eles.

Quando isso acabou?

Em 1920, aos dez anos de idade, quando tive que abandonar meu povoado e mudar-me para Hermannstadt, para estudar na escola média. Jamais esqueci essa catástrofe, essa tragédia, meu desespero naquele dia. Parecia o meu fim. Na época não havia carros, de modo que um camponês levou meu pai e eu a cavalo. O primitivo, que vivi ali, parecia-me a única vida possível. O que conta é a pré-história, isto é, o tempo anterior à entrada na consciência, na história, a vida inconsciente. A Humanidade deve seguir sendo o que é (risos), porque a História é apenas um equívoco; a consciência, um pecado; e o ser humano, uma aventura sem igual.

Uma reflexão religiosa?

Eu não sou ateu, ainda que não creia em Deus e não reze. Mas há em mim uma dimensão religiosa indefinível, para além de toda fé. O crente se identifica com Deus, o que pode compreender, mas eu mesmo me sinto distante de tudo isso. Eu me movo na linha divisória. A grande idéia do pecado original do ser humano é compartilhada por mim, mas não no modo como se pensa oficialmente sobre o assunto. Tanto a História como também o homem são, queiramos ou não, produtos de uma catástrofe. A idéia do desvio do ser humano é imprescindível para se entender o desenvolvimento da História. Segundo essa idéia, o ser humano é culpado, não no sentido moral, mas por ter se envolvido nessa aventura. Quando abandonei minha aldeia, deixei de ser primitivo. Antes, havia pertencido à Criação, como os animais, com aqueles que tinham uma relação pessoal comigo; agora me encontrava fora, à distância.

Você discorreu sobre os santos, sobre a “Criação fracassada”, e viu-se metido em dificuldades?

Sim. Minha mãe era presidenta da Igreja Ortodoxa em Hermannstadt e meu pai – bom sacerdote, além de sincero, mas de modo algum um homem de profunda religiosidade – queria na verdade ser advogado. Ficou muito triste quando leu o texto Sobre lágrimas e santos, no final de 1937, pouco antes de minha mudança para Paris. Quando enviei o manuscrito ao meu editor romeno, este me telefonou um mês depois para dizer-me que não poderia imprimi-lo. Ele mesmo não havia lido, mas sim um de seus linotipistas, e disse que devia seu patrimônio à ajuda de Deus e que não poderia publicar um livro assim por nada nesse mundo. De minha parte, em plenos preparativos de viagem à França, perguntei-me desesperado o que fazer. Na ocasião, encontrei-me com um romeno que havia colaborado com a revolução Russa e tinha conhecido Lênin. Perguntou-me o que acontecia, contei-lhe a história e ele era dono de uma gráfica. Assim, meu livro foi lançado sem um selo editorial, pouco depois de ter-me mudado para Paris. Alguns meses depois, recebi uma carta de minha mãe, na qual falava sobre a desgraça que meu livro havia provocado. Ainda que não fosse em verdade uma religiosa, sentia-se sob fortes pressões e rogou-me que retirasse o livro de circulação. Respondi que era a única obra religiosa escrita nos Bálcãs, porque era uma confrontação balcânica com Deus. Quase todos meus amigos reagiram mal, sobretudo Mircea Eliade, que escreveu uma crítica extraordinariamente dura, enquanto que uma garota que eu conhecia me disse que era o livro mais triste que havia lido. Evidente que se tratava de uma experiência religiosa equivocada. Eu havia mergulhado de tal modo na vida dos santos que, na verdade, deveria ter rezado. Mas para isso me faltavam os dotes necessários, ainda que me sentisse atraído pelos grandes místicos. Porém, a fé religiosa não é nunca resultado da reflexão, mas algo muito complicado. A religiosidade pode ser tola, mas tem raízes muito profundas (risos).

Em sua obra transparece um elogio da vida primitiva.

Nesse povoado romeno em que vivia, tínhamos uma horta ao lado do cemitério e, por essa razão, desde pequeno fiquei muito amigo de um coveiro de cinqüenta anos. Era um homem que agia alegremente quando tinha que cavar uma tumba e jogava futebol com as caveiras. Tenho me perguntado sempre como podia sentir-se tão feliz dia após dia. Eu mesmo não era como Hamlet, não era suficientemente trágico. Mais tarde, nossa estreita amizade sofreu uma mudança e se converteu num problema. Eu me pergunto por que razão temos que experimentar tudo isso na vida. Somente para acabar como um cadáver? Essas impressões ficaram gravadas indelevelmente. Aquele homem – enfrentando a morte diariamente – se comportava como se nunca tivesse visto um morto. Gostava muito dele. Estava sempre sorrindo.

A morte é um tema ao qual você tem sido fiel.

Desde cedo. É uma postura com que se vincula outro tipo de intensidade. Tenho convivido com a morte, desde muito jovem. Ainda que agora tenha mais motivos para pensar nela, não associo com a morte nenhuma idéia compulsiva. Em minha juventude, a idéia que tinha da morte era uma obsessão que se apoderava de mim de manhã até a noite. Como núcleo da realidade, possuía uma presença opressora, muito distante de todas as influências literárias. Tudo girava em torno dela, para além da repugnância e do medo, ainda que de forma patológica. Isto, naturalmente, era também conseqüência de que não dormi bem durante sete anos de minha juventude, de que estava extenuado. Naquele tempo, escrevi No cume do desespero. Essa insônia persistente transformou minha perspectiva do mundo e minha atitude diante dele. O momento pior desta situação aconteceu em Hermannstadt, quando vivia com meus pais. Caminhava sem destino, pela cidade, à noite. Minha mãe chorava de desespero, e eu mesmo, que acabara de completar 21 anos, estava a ponto de me suicidar. Até hoje não sei porque não o fiz. É possível que tenha aplacado a vontade de suicídio por força de escrever. Eu não tinha a menor idéia concreta do que era minha vida.

Você mudou sua idéia da morte?

Não é possível mudar a opinião que se tem sobre a morte. Constitui de per si um problema, o problema da existência. Em comparação com ele, todo o restante se evidencia como carente de importância. Curiosamente, há muitas pessoas que não conhecem o sentimento da morte, não querem ou não podem pensar nela. Os que compreendem o que significa a morte são minoria. Aos demais falta valor e mesmo os filósofos evitam o problema.

Mas se filosofa sobre a morte.

Claro que a morte é um tema na história da filosofia (risos), mas não como vivência íntima. Em Baudelaire existe a morte, em Sartre não. Os filósofos têm se esquivado da morte fazendo dela uma questão, ao invés de experimentá-la como algo existente. Não a consideram como algo absoluto, mas entre os poetas é diferente. Eles adentram profundamente o fenômeno, rastreando-o. Um poeta sem sentimento de morte não é um grande poeta. Parece exagerado, mas é assim.

Fonte http://triplov.com/Filosofia/Cioran/Filosofia-irritada.htm

“Hello. What’s your name?”: como desconhecer uma pessoa completamente

Aquele tradicional e já superado diálogo das aulas de inglês -que ninguém suportava e nem aprendia nada: a não ser a desgostar do inglês- que nos ensinavam (?)… Mas lembro-me de uma professora que morou nos States falar sobre o interesse dos americanos pelo status. As formalidades de cumprimentos são banais, mas são uma maneira eficaz da gente não se mostrar.

Aquilo que sou não se restringe a profissão, folha de pagamento e a quantos carros e casas tenho em meu nome. É verdade, porém, que é muito mais fácil falar desses “títulos de nobreza”. Por que, de fato, há gente tão empobrecida que só possuem essas coisas: falar mais do quê? E se depois de exibirmos os títulos precisarmos falar mais alguma coisa? vamos acabar de encher a tripa da linguiça com mais algumas banalidades para não escutarmos o grilo cantando (porque se tivermos de falar de coisas da ordem do “ser” vamos, facilmente, só ouvir a trilha sonora do grilo que esteja nas redondezas para nos salvar do vazio absoluto).

Mas falar do ser é conversa fiada, poético demais – ou trágico demais -, o mundo “real” das contas a pagar não dão espaço pra isso. Ou, talvez, o mundo “real” do ser seja tão sofrido ou vazio que é melhor falar de coisas.

Diálogo de um contemporâneo com Sócrates:

– O que você faz? Tá empregado? E a crise?

– Que crise? Existencial?

– É claro que não. Financeira. Em que mundo você vive?

– Vivo dentro de mim a observar o mundo e suas ansiedades que mudam sempre sem se esgotar.

Não é a toa que mataram Sócrates: pessoas assim são insuportáveis já faz tempo.

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*Rodrigo

O coelho da cartola: do bafômetro à anistia política

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A corrupção dos governantes quase sempre começa com a corrupção dos seus princípios.

Barão de Montesquieu

Uma grande descoberta da alta experimentação dos brasileiros pode revolucionar seu final de semana: vinagre burla o teste de bafômetro! Os bebedores de plantão podem continuar a gozar na bebedeira sem se preocuparem com fiscalização. Porque o que de fato importa não é se você não tem condições “técnicas” de dirigir sob efeito de álcool, podendo se matar, e pior,   matar os outros; mas se você vai ser pego no impertinente bafômetro – que nada sabe sobre sua real eficiência no volante. E, claro, porque uma vez pego numa infração desse tipo tudo se complica para seu bolso e para sua carta de salvo conduto de quatro rodas.

Quando vejo políticos manobrando uma lei pra se safarem de todas as tramoias e espertezas com o nome de anistia, não me escandalizo tanto.  Dá uma revolta? Dá! Mas sigo fixo na ideia de que essa não é atitude só de políticos, mas de homens sejam eles quem for. Os homens são dados as essas espertezas. Acho que depende muito do tamanho do poder e da visibilidade dele.

Somos muito hábeis em tirarmos coelhos da cartola. Quando parece que o cerco da fechando e todo mundo vai pagar pelo mal que fez… um coelho sai do nada!

Existem várias historinhas que circulam aqui e acolá nos falando sobre a gravidade desses pequenos delitos frente à verdade e a honestidade.  São “bacaninhas” e tal, mas na maior parte das vezes não passam de historias com fundo moral. Outras vezes as achamos muito pertinentes, porém, nos projetamos no aprendizado alheio: fulano podia ler essa história. Ou ainda, entendemos tudo direitinho, mas ao nos reportarmos aos exemplos concretos da vida só pensamos nas escorregas do vizinho.

Não me interesso pelo vinagre mágico, nem pela anistia mágica que faz desaparecer todas as “tretas” políticas por que não sofro dessas coisas, mas bem que poderia haver uma magia para… É melhor parar por aqui!

*Rodrigo Virtuoso F. Leal

Vidas

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Há vidas tão planejadas e milimetricamente traçadas que se parecem com Brasília: grandes retas, nenhuma rua sem saída, um cenário quase artificial. Brasília, tirando o João de Santo Cristo, não é destino pra ninguém. É cidade de políticos e diplomatas, algo muito arranjado.

Há outros, no entanto, possuem uma vida altamente passional, improvisada, repleta de becos e ruelas tal como uma favela. Uma vida cheia de emboscadas e surpresas, de agito e algazarra, de ansiedades e euforias, mas também de perdas trágicas e carestia.

Entre Brasília e a favela deve haver um lugar. Uma vida movida de razão e paixão, de coerência que não perde o interesse pelas urgências humanas. De organização sem ser chato ou opressivo. De segurança, sem perder a alegria e o gozo de ser surpreendido…

Acho que procuro uma vida “Shangri-La”.

*Rodrigo Virtuoso F. Leal

 

O hábito e o vício

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A maioria dos devassos é devassa não porque goste da devassidão, mas sim porque sente mal-estar quando se priva dela. O hábito transforma os gozos esquisitos em necessidades monótonas e cotidianas. O homem que adquiriu o hábito das mulheres ou do gin, de fumar ópio ou de suportar a flagelação, acha tão difícil viver sem os seus vícios como viver sem pão e água, mesmo quando a prática do vício se possa ter tornado em si mesma tão despida de sensação como comer uma fatia de pão ou beber um copo de água da pia. O hábito é tão fatal para o sentimento da prática do mal como para o gozo ativo. Depois de alguns anos o judeu convertido ou cético e o hindu ocidentalizado podem comer carne de porco e came de boi com uma serenidade que para os seus irmãos ainda crentes parece brutalmente cínica. Passa-se o mesmo com o devasso habitual. As ações que a princípio se afiguram emocionantes, excitantes na sua maldade intrínseca, tornam-se, depois de um certo número de repetições, moralmente neutras. Um pouco desgostantes, talvez, porque a prática da maioria dos vícios e seguida de reações fisiológicas deprimentes; mas que já não são “más”, porque se fizeram costumeiras. É difícil uma rotina dar a impressão de maldade.

Contraponto – Adouls Hexley

O ato secreto

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Estava olhando aquela porta se abrir com muita ansiedade. Desde nosso último encontro, algo ficou suspenso e sabia que voltaríamos aquele ponto. Minhas mãos suavam, meu coração se agitava como um cavalo de corrida esperando a largada. Eu não sabia o que faria quando passasse daquela porta, mas estava disposta a tudo. O desejo de fugir se alternava com uma excitação em permanecer. Não sabia bem se o que estava prestes a fazer era certo ou errado, era verdadeiro ou apenas mais uma ilusão. Depois de quinze minutos eternos ele abriu a porta, dispensou uma outra e acenou para mim sutilmente. Atravessamos um pequeno corredor onde trocamos algumas palavras. Depois adentramos por outra porta para dentro de nossa câmara nupcial. Da outra vez chegamos quase lá, mas fiquei muito reticente e não pude continuar, ainda não estava pronta para me entregar. Ele era muito sedutor, seu olhar sempre penetrante, sua voz muito envolvente, tudo nele me atraía fortemente, mas quando pensava em não resistir mais, vinham-me a memória as lembranças passadas, de como fui machucada e usada, atiraram-me no círculo dos escarnecedores depois de ter confiado como uma donzela inocente. Meus amantes confidentes eram também meus algozes. Já ele não forçava nada, mas convidava-me pouco a pouco. Nesse flerte ao som de uma melodia interior ousei; e logo em seguida pensei bem e por vezes tinha a sensação de que seria violada. Tinha medo de que ele – também – só quisesse aquilo e depois se desinteressasse por mim. Novamente estava ali, olho no olho, ouvindo até mesmo a respiração. O clima naquele lugar à porta fechada estava saturado de tensão “pré ato”. Agora não mais fugiria, ele era diferente dos outros, era o homem certo. Como uma virgem acanhada esperei que ele tomasse a iniciativa e depois de carícias – ele sabia não ir direto ao ponto para não parecer indelicado – e deliciosas preliminares, enfim deixe-me penetrar: revelei a ele o meu mais guardado e protegido segredo! Disse, enfim, depois de tantas sessões aquilo que parecia óbvio mas que recusei por tanto tempo: sou imperfeita e carrego muitas obscuridades. Aliviei-me ao dizer, como num grande orgasmo. Enfim chegamos ao ponto: “falei ao meu psicólogo de mim, despida de tantas máscaras discursivas”. Senti o peso daquela obscenidade. Deixei de lado meus disfarces, lancei fora minha roupa social e, nua, não pude fazer outra coisa senão me entregar.  Me senti desprotegida, sem nada para encobrir minha vergonha. O medo do julgamento só durou até falar. Estava a beira do abismo e arrisquei pular. No salto já não pensava mais nada, apenas sentia a sensação de queda livre. Depois do ato e já vestida novamente olhei-o nos olhos e não senti vergonha: meu segredo ficará bem guardado com ele, mas já não é tão ameaçador. Posso suportar quem sou… me perdoo por ser quem sou. Se ele não se espantou, se ele não me rejeitou, então posso me aceitar! Trocamos mais algumas palavrinhas sem muita importância e ele conduziu-me até a saída e com aquela habitual despedida me disse: nos vemos na próxima semana!

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 *Rodrigo Virtuoso F. Leal

Saúde salterológica

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 “Que seu remédio seja seu alimento, e que seu alimento seja seu remédio”

“A arte é longa, mas a vida é breve.”

Hipócrates

Estava pesquisando algo ligado a alimentação no youtube e ao ouvir a explicação de um médico especialista tive a sensação de ouvir um pastor pregando a salvação. A certa altura ele disse “é preciso mudar de vida” e mais adiante completou “se você deseja uma verdadeira transformação ouça o que vou lhe dizer” e com ares de profeta ele foi dando sentenças e citando códigos que mais se parecem com cânones.

Os médicos sempre foram divindades, mas há uma classe que não era tão afamada como hoje: os nutrólogos! As receitas de saúde facilmente se apresentam como fórmulas de eternidade. Nossa perspectiva de vida aumentou e com ela nossa ilusão de perenidade do corpo.

Cada vez mais essa quase “seita” capta mais adeptos e legionários altamente fiéis e atentos as divinas instruções. É um grande e rentável mercado que cresce abundantemente: boa alimentação, medicamentos naturais, suplementos de todo tipo, estilo de vida, bem-estar, academia, parecem engrenagens de uma mesma lógica.

A raiz da questão me parece o culto da matéria ou do corpo. Somos cada vez mais materialistas. Com a desmontagem da metafísica, demolimos ou ao menos deslocamos o uso do sentido da vida. A alma imortal tão debatida entre os gregos e depois entre os cristãos não está mais em questão. E se, hoje, não chegamos a discutir abertamente a imortalidade do corpo rumamos de alguma forma pra isso, depositando toda nossa fé e esperança em alguma descoberta científica.

Nossa alimentação e nossa saúde se tornaram um fronte dessa batalha. Batalha essa que tenta alinhar o bem e o mal. Se perdemos o interesse no diabo e nos seus sequazes que nos levavam ao mal, por outro lado muito nos interessa as maquinações sombrias das indústrias alimentícias que nos entopem de produtos cheios de conservantes e elementos cancerígenos. Nos defendemos das obras das trevas “fastfood”. Há vários profissionais da saúde que impõem os alimentos bonzinhos e cheios de vida   e os alimentos malignos que só causam a morte. E num tom grave, olhando para câmara afim de atingir a alma do espectador, desafiam: aqui está o bom caminho e aqui está o mal caminho, escolhe pois a vida. E depois dessa pregação não há quem possa comer a gordura da picanha sem medo do infarto. Não há como ter prazer sem pensar nas punições. E, os mais desviados e rebeldes, apenas dizem em tom nada filosófico: “ah! vou morrer mesmo, ao menos vou comer bem”.

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As academias viraram epidemia. A saúde virou culto. O alimento virou objeto sagrado. O médico nutricionista virou guru. O corpo virou meta de salvação.

As pessoas em rodas de conversa e quando estão dando aquela colherada de gostosuras fazem confissões dramáticas do tipo “nossa, esses dias comi muita coisa, preciso voltar para dieta”. É notório o peso da culpa a lá “Crime e Castigo”. Penso que logo logo vão criar um tipo de confissão e absolvição com o nutricionista: eu te absolvo de todas as gorduras comidas e de todas as massas desmedidas em nome da alface, do tomate e azeite e como penitência passará uma semana só com saladas e grãos. Amém! De sermos corruptos, ambíguos, dissimulados, egoístas etc, já superamos a culpa. Essas coisas não são mais tão graves como se empanturrar de alimentos pecaminosos.

É claro que não estou aqui fazendo apologia à “heresia” alimentar. Não sou tão promíscuo. Não sou um pecador tão contumaz assim. Prezo pela boa alimentação e pelo regramento da boca. Mas não me escapa que a linguagem atual do nutricionismo tem tons de salteriologia e nos fazem comprar mais uma fantasia medíocre: a perenidade do corpo. Enquanto nos preocupamos tanto em durar mais tempo e gastamos energia nessa busca de uma “terra prometida” sem ocaso, nos esquecemos de fazer a vida realmente valer a pena em sua brevidade.

*Rodrigo Virtuoso F.Leal

Vazio insaciável

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Vi há poucos dias uma já antiga entrevista com a escritora britânica J. K. Rowling.  Rowling escreveu nada mais nada menos que a saga mais rentável de todos os tempos “Harry Potter”. Na entrevista para Oprah ele confessa que depois do imenso sucesso que foi a fantasia envolvendo bruxos, ela se debateu com o desejo de repetir o feito de algo tão grandioso.

Michael Jackson sofreu o mesmo drama após o épico sucesso de Thriller, álbum mais vendido da história. Uma lista imensa de escritores quiseram repetir ou mesmo superar suas proezas inicias, como atletas recordistas em olimpíadas afim de auto-superação. Escritores como F.Scott e Thomas Wolfe agonizaram com uma pena tentando provar que podiam impressionar a crítica uma outra vez e conquistarem a mesma aceitação do público como nos primeiros escritos.

Sucesso e prestígio, dinheiro e reconhecimento: velhas ambições do espírito humano que parecem tocar – ainda – grandes sacrifícios. O que as pessoas são capazes para terem o extasiante prazer da admiração alheia, do elogio pontual, do destaque em meio ao bando?

Como o ápice  de drogadito sob o efeito alucinante de um entorpecente que corre pelas veias, ocupando os canais de uma existência que parece se afogar em endorfina. Um efeito, de fato, inebriante, um vislumbre no lago de Narciso até a “perdição”. Perder-se na própria imagem, no desejo de se possuir. E, quando a um passo de, enfim, ter as mãos aquele pássaro selvagem, logo se vê de mãos nuas e sentindo-se tão pobre e insignificante como sempre.

Esse impreenchível vazio que tentamos tamponar com tudo até mesmo com sucesso, com feitos prodigiosos, com aceitação alheia… tudo se revela inútil porque inatingível. E quando se parece que esta lá, logo se quer repetir, se quer mais, se quer ir além. Mas esse além é apenas um vazio insaciável!

*Rodrigo Virtuoso F. Leal

Nossas referências

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Um dia desses ouvi alguém ressentido, inconformado que nossas maiores referencias filosóficas-intelectuais sejam os midiáticos filósofos Felipe Pondé, Leandro Karnal e Clóvis de Barros. Nessa conta queria incluir outros dois (mas que pertencem a outro campo do saber): Paulo Coelho e Augusto Cury.

Coisa comum entre todos esses: são muito populares, frequentam a grande mídia, possuem uma legião de seguidores e ganham fortunas (acho que os três primeiros não são tão afortunados assim). Não sei se é recalque, mas muita gente se ressente com esses pensadores-escritores.

Filosofia, literatura e ciências psi estão ai, “bem ou mal”, representadas para o grande público. De minha parte, me restringindo a minha área específica (psi), dou um pitaco: desgosto-me bastante dos jargões pretensiosamente científicos de Augusto Cury. Algumas falas suas beiram a megalomania, como quando se considera o maior ateu que pisou sobre a terra. Essa consideração é, no mínimo, risível e preocupante se ele realmente acredita nela.

Por outro lado, creio, que eles dão alguma boa contribuição quando popularizam o conhecimento. Porém, algo de raso e por vezes até distorcido se dê nesse processo de tentar elaborar um linguajar mais acessível as pessoas não especialistas nesses assuntos.

Alguns conhecidos meus, especialistas nas outras áreas, chegam mesmo a afirmar que esses autores prestam um verdadeiro desserviço. Mais atrapalham que ajudam. Não concordo muito. As vezes acho que esses autores populares acabam por servir de trampolim para outros autores e fontes mais profundas. Talvez quem comece com Paulo Coelho leia mais tarde um Dostoievisk. Quem hoje lê “Filosofia para corajosos” amanhã acabe lendo do mesmo autor “O Homem Insuficiente – Comentários de Antropologia Pascaliana”. Essa é minha aposta e esperança.

Penso que nossas referências mudam ao passar dos anos. Nos encantamos aqui e acolá. A busca de conhecimento não é algo estático. As referências intelectuais que adotamos hoje, amanhã poderemos renunciá-las e mesmo combatê-las. É comum e, talvez, até desejável isso!

Portanto, todos contribuem nesse vasto cenário de muitas cores. Não temos um canon universal do saber secular, por isso de tudo um pouco é possível. Embora exista algo que seja altamente descartável e mesmo nocivo.

O grande crivo, porém, que vai filtrando essas influências é a própria busca que vai sendo formada pelos encontros e desencontros, pelos diálogos e pela reflexão que se avoluma a medida que se insiste em buscar.

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*Rodrigo Virtuoso F. Leal